2.10.10

Joguete.

Mirrado e roliço atira a cabeça para trás enquanto ri;
Um risco em vez de olhos que se adelgaça,
Quando borrachão embarga a voz reclusa
Em ditos proféticos ou boas-novas daquele dia.

Parece embutido no banco de armazém;
E quando sumida a imaginação e o rasgo eloquente,
O risco, antigo delírio do artista, engole as palmas e sai
Para o hábil malabarismo com esferas de olhos.

Esgueira-se da cozinha com nobre propósito,
Furta-se aos pratos de iguarias de chef,
Onde os outros mergulham as cabeças e
Cospem depois os caroços do ofício forçado,
Enquanto praguejam intempéries de proletário insatisfeito.
E decorre assim a fina tertúlia,
Quando me esquivo com não menos nobre propósito
E o surpreendo detido na ombreira.
Faria mossa, raízes e outras naturezas assim,
Se em instante que não chegou a ser tempo,
Não nos tivéssemos despedaçado como bichos esfomeados.
Pele rasgada, esguichos de sangue, ossos triturados,
Saltimbancos do triste espectáculo sempre inacabado.

Aviados os corpos do orgasmo,
Refazemos o esquema sem reparar
Nas folhas marcadas por pés vagabundos;
E se as procurássemos nas auroras vindouras
Iríamos encontrá-las ali, mesmo ali, roçando o velho tronco,
Sempre no mesmo lugar.

Cruzámo-nos depois ao dobrar da esquina,
Vinha rápido e desengonçado, meio tonto, bêbado de glória.
Ainda lhe escorria o fio de saliva da acrobacia no charco negro
Incha de orgulho, pobre rapaz ensebado,
Arranca a carne podre e bolorenta e injecta no corpo a soberba.
Exibi a coisa preciosa e dei-ta numa bandeja, entre as galinhas coradas que,
Como ao teu homónimo, satisfazem a gula,
Mas guardei-a sem que chegasses a humedecê-la.
Guardei-a para alimentar outras bocas sedentas.


Helena.

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