vinco
8.3.15
"Cortei o cabelo muito curto. Deixei de usar maquilhagem. Meti batons e rímeis numa caixa de cartão que ofereci à Graça. Tenho preguiça de tirar o buço. Deixei de usar saltos altos, vestidos e transparências. Engordei cinco quilos. Já não corro. Também já não vou às aulas de ginástica. Tomo vários comprimidos ao longo do dia. Amo os meus filhos, e os meus filhos amam-se de volta. Gosto do silêncio, de árvores, de música francesa e da poesia da Adélia Prado. Não gosto muito de animais. Só de passarinhos. Toutinegras, piscos, pintassilgos, canários. Preciso de chorar pelo menos uma vez por mês. Choro nos dias de chuva e nos dias de sol. Choro dentro do carro, nas escadas do prédio e na igreja. Escrevi um livro que é uma grande merda. Disse-o, eufemisticamente, o editor. Foi gentil. Não almoço e não janto, mas, durante a noite, levanto-me para comer chocolates, bolachas, aperitivos indianos, latas de sardinha e pão com manteiga. Às vezes, para desenjoar, como laranjas e limões".
Ana Cássia Rebelo, Ana de Amsterdam
Quetzal, 2015
Ana Cássia Rebelo, Ana de Amsterdam
Quetzal, 2015
20.2.15
23.1.15
Apresentação
O eu poético, aprendi na escola, não sou realmente eu.
Um descanso - aqui entre nós - sabermos que
eu a morrer debaixo do sol e eles sentados, não era
António Franco Alexandre que morria. E quando
Herberto Helder nos diz olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela atravessar
vozes leves e ardentes e crimes sem roupa, não é ele
que quer atravessar as vozes leves. Também eu me
recuso a dizer apenas o que pode ser dito não foi,
afinal, dito por Tolentino Mendonça e eu esqueci-me
de lavar a louça e de encontrar um sentido para a vida, não é
lamento de Manuel de Freitas. A poesia, toda ela,
é uma criatura sem criador que lhe chame sua.
_______________ Foi
inventada por um duende qualquer.
Pedro Santo Tirso, Gin, Whisky e Outros Espíritos
(Do Lado Esquerdo, 2014)
O eu poético, aprendi na escola, não sou realmente eu.
Um descanso - aqui entre nós - sabermos que
eu a morrer debaixo do sol e eles sentados, não era
António Franco Alexandre que morria. E quando
Herberto Helder nos diz olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela atravessar
vozes leves e ardentes e crimes sem roupa, não é ele
que quer atravessar as vozes leves. Também eu me
recuso a dizer apenas o que pode ser dito não foi,
afinal, dito por Tolentino Mendonça e eu esqueci-me
de lavar a louça e de encontrar um sentido para a vida, não é
lamento de Manuel de Freitas. A poesia, toda ela,
é uma criatura sem criador que lhe chame sua.
_______________ Foi
inventada por um duende qualquer.
Pedro Santo Tirso, Gin, Whisky e Outros Espíritos
(Do Lado Esquerdo, 2014)
29.12.14
17.12.14
"Então para que serve tudo isto?"
Entrevista de Francisco José Viegas a António Lobo Antunes
(Revista LER, Dezembro 2014)
Passados estes livros todos, o António não pode dizer que escreve porque não pode dançar como o Fred Astaire.
Isso é evidente.
Então para que serve tudo isto?
Cada vez para menos. Eu tive três cancros nos últimos sete anos. Tive um há sete anos: "Que chances é que eu tenho? Trinta, quarente por cento?" O meu sentimento era de espanto. Nesse mesmo dia, disseram-me que tinha ganho o Camões. Eu queria lá saber do Camões para alguma coisa. Foi uma operação complicada. Estive 18 dias em Santa Maria. Era horrível. E era exactamente como Proust contava: passava as noites à espera da manhã. Como se manhã me fosse salva de qualquer coisa. Não me salvou de nada. E depois a quimio. Tudo aquilo. Há um ano e tal, dois anos, um cancro em cada pulmão. Um tinha cinco milímetros e o outro oito. Foi a minha sorte. Falei com o oncologista, que é um professor da faculdade, que é muito bom. Segundo o Professor Sobrinho Simões, é o nosso melhor oncologista, Luís Costa. Um homem novo, com 50 anos. Fui operado. Tiraram-me os dois tumores. Ele disse: "Vou fazer-lhe uma quimioterapia muito dura. Que pode dar barraca. Se não der barraca, você fica curado". Então, os meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro do ano passado foram quatro meses a fazer quimioterapia. Depois daquilo, eu não podia sequer mexer-me. E fiquei curado. Agora estou à espera da próxima. Isto tudo relativizou muito a importância da literatura. Percebi que, sim senhor, ia haver imortalidade, mas que eu ia morrer como um cão. E vou morrer como um cão, como toda a gente. E eu pensava sempre: "Vão ficar os livros, vou ficar vivo através dos livros". Mas ninguém fica vivo através dos livros. Os livros podem ficar mas são independentes de nós. Oxalá fiquem. Mas os livros não ficam o tempo todo. Dos 10 grandes dramaturgos de que Aristóteles fala, não sobra nada. E não estão lá o Sófocles, nem o Ésquilo, nem o Eurípides, nem outros nomes que se perderam completamente entretanto. Mesmo do Ésquilo restam fragmentos. Vai desaparecer, enquanto o Euclides vai continuar vivo. Isto é perfeitamente indecente. Como o Pitágoras continua vivo. De qualquer forma, por muito bom que seja o nosso trabalho, ele vai acabar por desaparecer. É uma questão de tempo".
(Revista LER, Dezembro 2014)
Passados estes livros todos, o António não pode dizer que escreve porque não pode dançar como o Fred Astaire.
Isso é evidente.
Então para que serve tudo isto?
Cada vez para menos. Eu tive três cancros nos últimos sete anos. Tive um há sete anos: "Que chances é que eu tenho? Trinta, quarente por cento?" O meu sentimento era de espanto. Nesse mesmo dia, disseram-me que tinha ganho o Camões. Eu queria lá saber do Camões para alguma coisa. Foi uma operação complicada. Estive 18 dias em Santa Maria. Era horrível. E era exactamente como Proust contava: passava as noites à espera da manhã. Como se manhã me fosse salva de qualquer coisa. Não me salvou de nada. E depois a quimio. Tudo aquilo. Há um ano e tal, dois anos, um cancro em cada pulmão. Um tinha cinco milímetros e o outro oito. Foi a minha sorte. Falei com o oncologista, que é um professor da faculdade, que é muito bom. Segundo o Professor Sobrinho Simões, é o nosso melhor oncologista, Luís Costa. Um homem novo, com 50 anos. Fui operado. Tiraram-me os dois tumores. Ele disse: "Vou fazer-lhe uma quimioterapia muito dura. Que pode dar barraca. Se não der barraca, você fica curado". Então, os meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro do ano passado foram quatro meses a fazer quimioterapia. Depois daquilo, eu não podia sequer mexer-me. E fiquei curado. Agora estou à espera da próxima. Isto tudo relativizou muito a importância da literatura. Percebi que, sim senhor, ia haver imortalidade, mas que eu ia morrer como um cão. E vou morrer como um cão, como toda a gente. E eu pensava sempre: "Vão ficar os livros, vou ficar vivo através dos livros". Mas ninguém fica vivo através dos livros. Os livros podem ficar mas são independentes de nós. Oxalá fiquem. Mas os livros não ficam o tempo todo. Dos 10 grandes dramaturgos de que Aristóteles fala, não sobra nada. E não estão lá o Sófocles, nem o Ésquilo, nem o Eurípides, nem outros nomes que se perderam completamente entretanto. Mesmo do Ésquilo restam fragmentos. Vai desaparecer, enquanto o Euclides vai continuar vivo. Isto é perfeitamente indecente. Como o Pitágoras continua vivo. De qualquer forma, por muito bom que seja o nosso trabalho, ele vai acabar por desaparecer. É uma questão de tempo".
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