17.12.14

"Então para que serve tudo isto?"

Entrevista de Francisco José Viegas a António Lobo Antunes
(Revista LER, Dezembro 2014)



Passados estes livros todos, o António não pode dizer que escreve porque não pode dançar como o Fred Astaire.
Isso é evidente.

Então para que serve tudo isto?
Cada vez para menos. Eu tive três cancros nos últimos sete anos. Tive um há sete anos: "Que chances é que eu tenho? Trinta, quarente por cento?" O meu sentimento era de espanto. Nesse mesmo dia, disseram-me que tinha ganho o Camões. Eu queria lá saber do Camões para alguma coisa. Foi uma operação complicada. Estive 18 dias em Santa Maria. Era horrível. E era exactamente como Proust contava: passava as noites à espera da manhã. Como se manhã me fosse salva de qualquer coisa. Não me salvou de nada. E depois a quimio. Tudo aquilo. Há um ano e tal, dois anos, um cancro em cada pulmão. Um tinha cinco milímetros e o outro oito. Foi a minha sorte. Falei com o oncologista, que é um professor da faculdade, que é muito bom. Segundo o Professor Sobrinho Simões, é o nosso melhor oncologista, Luís Costa. Um homem novo, com 50 anos. Fui operado. Tiraram-me os dois tumores. Ele disse: "Vou fazer-lhe uma quimioterapia muito dura. Que pode dar barraca. Se não der barraca, você fica curado". Então, os meses de Junho, Julho, Agosto e Setembro do ano passado foram quatro meses a fazer quimioterapia. Depois daquilo, eu não podia sequer mexer-me. E fiquei curado. Agora estou à espera da próxima. Isto tudo relativizou muito a importância da literatura. Percebi que, sim senhor, ia haver imortalidade, mas que eu ia morrer como um cão. E vou morrer como um cão, como toda a gente. E eu pensava sempre: "Vão ficar os livros, vou ficar vivo através dos livros". Mas ninguém fica vivo através dos livros. Os livros podem ficar mas são independentes de nós. Oxalá fiquem. Mas os livros não ficam o tempo todo. Dos 10 grandes dramaturgos de que Aristóteles fala, não sobra nada. E não estão lá o Sófocles, nem o Ésquilo, nem o Eurípides, nem outros nomes que se perderam completamente entretanto. Mesmo do Ésquilo restam fragmentos. Vai desaparecer, enquanto o Euclides vai continuar vivo. Isto é perfeitamente indecente. Como o Pitágoras continua vivo. De qualquer forma, por muito bom que seja o nosso trabalho, ele vai acabar por desaparecer. É uma questão de tempo".


Arquivo do blogue