22.6.11

"- Vou dar-lhe umas ideias sobre a campanha de publicidade. Só para o senhor ter uma noção. Pode pensar sobre o assunto com calma e apresentar as suas sugestões.
(...)
- Começaremos por fazer o mais simples e elementar dos apelos ao instinto de conservação do público. Acentuaremos que a Calça Patente é confortável, que usá-la é evitar a dor. Uns tantos slogans incisivos sobre o conforto, é disso que precisamos. Tudo muito simples. Custa pouco convencer um indivíduo de que é mais agradável sentar-se no ar do que na madeira. Mas, depois da questão do assento duro, temos de escorregar por uma tangente subtil e fazer um ataque de flanco aos instintos sociais.
(...)
Teremos de falar sobre as glórias e as provações do trabalho sedentário. Precisaremos de exaltar-lhes a dignidade espiritual e ao mesmo tempo coordenar os seus desconfortos físicos. «O assento da honra» hem! Poderíamos conversar a esse respeito. «Os assentos dos poderosos». Desse e de ditos populares semelhantes poderia aproveitar-se alguma coisa. E, depois, pode haver algum palavreado histórico sobre os tronos, como têm sido dignos, mas incómodos.
(...)
Na propaganda moderna deve elogiar-se o público, não no estilo oleoso, abjecto, comercial, dos antigos anunciantes, que rastejavam diante de clientes socialmente superiores; tudo isso é coisa do passado. Agora nós é que somos socialmente superiores, porque ganhamos mais dinheiro do que os bancários e os funcionários públicos. A nossa lisonja moderna deve ser viril, directa, sincera, admiração de igual para igual, tanto mais desvanecedora quanto na realidade não somos iguais. - Mr. Boldero levou um dedo ao nariz. - Eles são uns pobres coitados e nós somos capitalistas... - Soltou uma gargalhada."

Geração Perdida, de Aldous Huxley (Livros do Brasil, 1982)

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