"Ele sabia o que sua mãe pensava e que nesse momento ela amava-o. Mas sabia também que não é grande coisa amar um ser ou que, pelo menos, um amor não é nunca bastante forte para encontrar a sua própria expressão. Assim, sua mãe e ele amar-se-iam sempre em silêncio. E ela morreria por sua vez - ou ele - sem que durante toda a vida tivessem podido ir mais longe na confissão da sua ternura. Do mesmo modo ele tinha vivido ao lado de Tarrou, e esta noite ele estava morto sem que a sua amizade tivesse tido tempo de ser verdadeiramente vivida. Tarrou tinha perdido a partida, como ele dizia. Mas ele, Rieux, que tinha ganho? Tinha apenas ganho ter conhecido a peste e lembrar-se dela, ter conhecido a amizade e lembrar-se dela, conhecer a ternura e haver um dia de lembrar-se dela. Tudo o que o homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória. Talvez fosse isto que Tarrou chamava ganhar a partida.
(...)
Mas se era isso ganhar a partida, como devia ser duro viver apenas com o que se sabe e aquilo de que se tem lembrança, privado do que se espera. Era assim, sem dúvida, que tinha vivido Tarrou, e ele tinha consciência do que há de estéril numa vida sem ilusões."
A Peste, de Albert Camus
(Livros do Brasil)
