Oração
"Noite, calada noite, em que estão tecidas
coisas brancas, vermelhas, matizadas,
cores dispersas, sublimadas e fundidas
numa só Sombra e num só Silêncio, - põe-me
também a mim em relação com o muito
que conquistas e convences. Jogam
talvez os meus sentidos indo de mais co'a luz?
Ressaltaria ainda a minha face
discordante dos outros objectos?
Julga pelas minhas mãos: - Não são
elas como um instrumento e uma coisa?
E não é o próprio anel singelo
no meu dedo, e não pousa a luz
confiante sobre elas,
como se fossem caminhos que, iluminados,
se não ramificam de outro modo que no escuro?..."
Rainer Maria Rilke
Poemas, As Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu (Edições Asa, 2003)
