"Num grande mal-estar, na angústia, numa solenidade interior. - O mundo recuando a uma certa distância, a uma crescente distância. - Cada palavra tornando-se densa, demasiado densa para doravante ser pronunciada, palavra plena de si, palavra num ninho, enquanto o ruído do fogo de lenha na chaminé se torna a única presença, se torna importante, preocupante e os seus movimentos estranhos... À espera, uma espera que a cada minuto se faz mais carregada, mais ouvinte, mais indizível, mais dolorosa de suportar... e até onde se conseguirá suportá-la?
Distante, como um ligeiro assobio da brisa nos cordames, anunciador de tempestades, um arrepio, um arrepio não na carne nem na pele, um arrepio abstracto, uma arrepio num atelier do cérebro, numa zona que não se pode arrepiar em arrepios. Onde, então, se irá arrepiar?
Como se houvesse uma abertura, uma abertura que fosse uma reunião, que fosse um mundo, que fosse como se pudesse acontecer alguma coisa, como se pudessem acontecer muitas coisas, que tivesse multidão, que tivesse agitação dentro do possível, que todas as possibilidades fossem possuídas de formigueiros, que a pessoa que ouço andar vagamente aqui ao lado pudesse tocar à campainha, pudesse entrar, pudesse pegar fogo, pudesse trepar ao tecto, pudesse atirar-se aos gritos sobre o empedrado do pátio. Pudesse tudo, fosse o que fosse, sem escolha e sem que uma das suas acções fosse preferível a outra. Eu também não me comovo de outro modo. É o «pudesse» que conta, esse prodigioso ímpeto de possibilidades tornadas enormes, e que continuam a multiplicar-se.
(Os sons da telefonia ou do disco, palavras ou músicas, não surtem qualquer efeito sobre nós. Só o real semeia e produz.)
De repente, mas previamente precedida por uma palavra de vanguarda, uma palavra-estafeta, uma palavra lançada pelo meu centro de linguagem alertado antes de mim, como esses macacos que sentem os tremores de terra antes do homem, precedida pela palavra «cegante», de repente uma faca, de repente mil facas, de repente mil foices resplandecentes de luz, engastadas de relâmpagos, imensas, capazes de cortar florestas inteiras, lançam-se a trinchar o espaço de alto a baixo, com golpes gigantescos, com golpes miraculosamente rápidos, que eu tenho de acompanhar, interiormente, dolorosamente, à mesma velocidade insuportável, às mesmas alturas impossíveis, e imediatamente depois nas mesmas profundidades abissais, cisões cada vez mais excessivas, deslocantes, loucas... e quanto é que isto vai acabar... se é que isto vai acabar?
Fim. Acabou."
Henri Michaux, Miserável Milagre, 1956 - Antologia (Relógio D'Água, 1999)
