2.5.12
Que dentro há um sol. Como germina no ataúde
invisível do corpo. Como arreigadamente
brilha, com que penumbra de assombrado meteoro,
como que óptima quietude. Alamedas suspensas
esperam, junto do músculo, que se esvazie o fogo
que impregna a noite. É a teia, cerrada,
que regressa; é o raio inverso que revela
com a sua voz seminal as possibilidades
do gelo. A cinza dessangra-se. O cereal,
aproximando-se, procura gargantas onde furtar-se
às ardentes chuvas, fundamentos para a ponte
que só os vivos hão-de pisar, os inermes,
os que se curaram. Touros que respiram como arcos
tensos: ainda não. Acérrimos cavalos
que optam pelo sismo: não. Água que se vertebra,
como um súbito pescoço, ou cravos que a ferem:
ainda não. Terra sem sexo que oferece
o seu voo, a sua lentíssima energia, às árvores
impacientes; penínsulas faltas de sol e omoplatas,
onde vertiginosos peixes, inacabados
ainda, ignoram o fluir dos sudários.
É demasiado cedo para o tempo.
[...]
Sempre o soubemos: somos erro, erro
que caminha e constrói pirâmides, erro
que julga e apedreja e se solidifica
e reza a Deus e quebra as ancas do vinho.
E antes de perceber ao nosso redor
a lentidão com que trabalham os fósseis, muito antes
de saber que só há um mundo - espera, ser -
e que o vento que move os plátanos também
move as nossas correias e que um mesmo escoamento
luminoso - detém-te - arrasta a gangrena
e o silício e o pânico e as folhas do ácer
para um mar em silêncio onde tudo se anula
e dolorosamente recomeça, muito antes
de nos darmos conta da nossa radical
penumbra, construímos a casa dos sabres
e caímos, cobertos de língua, num nadir
de destruição, de edemas e de recifes, de gruas,
de enxertos e suor, de seiva acorrentada,
com a única ambição de iludir o crónico
esqueleto, mas indo até ele, vendo-o erguer-se,
sentindo que se incarna no voo exausto
de condor e da farinha, na polpa indómita
dos assassinados, na hérnia do bosque
que já não vê a luz, que só sente o hálito
dos astros mais negros, lentamente invocados.
Eduardo Moga, La luz oída, 1996
Poesia Espanhola, Anos 90
(Relógio D' Água, 2000)
