13.7.12


  "Candish, um jardineiro e uma criada estavam a trazer cadeiras - para o público. Não havia nada para o público fazer. A Sra. Manresa reprimiu um bocejo. Estavam todos em silêncio. Olhavam para as paisagens, como se alguma coisa pudesse acontecer a um daqueles campos para os aliviar do intolerável peso de estar sentado em silêncio, sem fazer nada, conviventes. As mentes e os corpos estavam demasiado próximos, e contudo não suficientemente próximos. Nós não somos livres, cada um deles sentia separadamente, para sentir ou pensar separadamente, nem mesmo para adormecer. Estamos próximos demais; mas não suficientemente próximos. Por isso se impacientavam.
  O calor aumentara. As nuvens tinham desaparecido. Tudo era sol agora. A paisagem posta a nu pelo sol estava acachapada, silenciada, parada. As vacas estavam imóveis; o muro de tijolo, que já não abrigava, repelia os grãos da cabeça do cão na relva ao lado dele. Depois com uma sacudidela pô-la de novo no joelho.
  Os olhos de Giles dardejavam. Com as mãos fortemente apertadas à volta dos joelhos fitava os campos planos. Fitando, de olhos dardejantes, ele permanecia em silêncio.
  Isabella sentia-se presa. Através das grandes barras da prisão, através da modorra de sono que os dobrava, setas sem fio trespassavam-na; de amor, depois de ódio. Através dos corpos dos outros ela não sentia nem amor nem ódio distintamente. Muito conscientemente sentia - tinha bebido vinho doce ao almoço - um desejo de água. «Uma caneca de água fresca, uma caneca de água fresca», repetia, e via água circundada por paredes de vidro brilhante.
  A Sra. Manresa estava morta por poder descontrair-se e aninhar-se num canto como uma almofada, uma revista com bonecos, e um saquinho de rebuçados. A Sra. Swithin e William observavam a paisagem com ar distante, e com indiferença.
  Como era tentador, como era tão tentador, deixar a paisagem triunfar; reflectir a sua ondulação; deixar as suas próprias mentes ondular; deixar os contornos alongarem-se e caírem para a frente - assim - como uma sacudidela súbita.
  A Sra. Manresa cedeu, caiu para a frente, mergulhou, depois refez-se.
 «Que paisagem!» exclamou ela, fingindo limpar as cinzas do cigarro, mas na verdade escondendo o bocejo. Então suspirou, fingindo exprimir não a sua própria sonolência, mas qualquer coisa ligada ao que ele sentia sobre as paisagens.
 Ninguém lhe respondeu. Os campos planos dardejavam verdes, amarelos, azuis, azul amarelos, vermelho amarelos, e depois azuis outra vez. A repetição era absurda, hedionda, entorpecedora."

Virginia Woolf, Entre os Actos
(Cotovia, 1991)

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