Ali, o circo.
Filho, consegues ver?
Olha, perto das colunas de luzes amarelas.
A tenda, como é grande.
E no topo as pequenas pirâmides,
sopros errados sem fogo.
Mãe, tem bandeiras mas e a música?
Lá dentro, meu filho, lá dentro
Quem a prendeu?
Ali, os carros.
Filho, consegues ver?
Sabias que levam aquelas rulotes de lugar em lugar, por ponte tão antigas que atrasam a viagem, espigas de milho tão altas que nem uma torre de homens basta e lagoas tão profundas que encharcam a travessia?
E que lá dentro há beliches, cortinas verdes e vermelhas e chávenas penduradas como na loja da avó?
Mãe, há leões naquela jaula mas e a música?
Lá dentro, meu filho, lá dentro.
Quem a prendeu?
E sabes de onde vem a água?
De um depósito que há no tecto, a que se junta a água da chuva.
Por baixo dos sofás há gavetas com toalhas, lençóis e casca de laranja seca,
que à noite são camas.
E se te deitares na outra, ao lado da janela maior,
vais imaginar que estás numa tenda que não cede à força do vento
nem à do homem sobre a terra.
Mãe, um chimpanzé saiu do acampamento e dirige-se a nós mas e a música?
Lá dentro, meu filho, lá dentro.
Quem a prendeu?
E sabias que há também um fogão igual ao lá de casa,
mas que se à noite voltássemos aqui
encontrá-los-íamos sentados,
exaustos e encolhidos,
junto àquela pequena mesa de madeira com manchas de vinho tinto, gordura e restos de carne?
Vê como chegam uma a uma
as moscas.
Umas atrás das outras, as moscas
em fila,
sem se perderem de vista.
Houve uma que se afastou.
Se a da frente tivesse olhado para trás
e a de trás menos segura do caminho,
tê-la-iam visto distraída com a raposa.
Quando chegou já a mesa fora recolhida.
Acabou por morrer.
É tarde, temos de ir.
O circo partiu.
Lá dentro, minha mãe, lá dentro.
No povoado vizinho, o Sr. Manuel, à espera.
Helena Bento
