"Olhe aqui estes cabelos, esta face, é desenho, é hábil; acolá aqueles olhos, aquele nariz, estão pintados... E num bom quadro, tal como eu o sonho, há uma unidade. O desenho e a cor deixam de poder diferençar-se; à medida que se pinta, desenha-se; quanto mais a cor se harmonizar, mais o desenho se faz preciso. É o que sei por experiência. Quando a cor está na sua riqueza, a forma está na sua plenitude. O contraste e as relações dos tons, aí está o segredo do desenho e do modelo... Tudo o resto é poesia. Que temos de ter no cérebro, talvez, mas nunca devemos tentar pôr na tela, sob pena de fazermos literatura. Ela chega lá sozinha.
Vai buscar um livro à estante, o seu velho Balzac. Folheia o Peau de Chagrin.
Sim, vocês têm as vossas metáforas, as vossas comparações. Embora me pareça que, multiplicar constantemente os «como», é pormos o nosso desenho a ver-se de mais. Não devemos puxar as pessoas pela manga... Mas só temos os tons, a visibilidade... Olhe, olhe... A falar de uma mesa servida, ele fez a sua natureza-morta. É Balzac mas à Veronese... Uma toalha...
Lê:
«... branca como uma camada de neve recentemente caída e sobre a qual se levantam com simetria os utensílios de cada conviva coroados por pequenos pães louros.»
Durante toda a minha juventude quis pintar isto, esta toalha de neve fresca... Agora sei que preciso de querer pintar o «sobre o qual se levantam com simetria os utensílios de cada conviva» e os «pequenos pães louros». Se eu pintar o «coroado», estrago tudo... Compreende? E se eu equilibrar e matizar de facto os meus utensílios e os meus pães como são ao natural, tenha a certeza de que as coroas, a neve, e todo este tremor, lá estão.
[...]
Enquanto formos forçados a ir desde o preto até ao branco, com a primeira destas abstracções a constituir como que um ponto de apoio, tanto para o olho como para o cérebro, patinhamos, não chegamos a alcançar o nosso domínio, a possuir-nos. Durante este período, aproximamo-nos das admiráveis obras que as idades nos transmitiram, onde encontramos um reconforto, um apoio, como aquele que a prancha dá ao banhista..."
Paul Cézanne por Élie Faure, seguido de O Que Ele Me Disse... por Joachim Gasquet
(Sistema Solar, 2012)

