10.9.12


  OS EMANGLÕES
  Usos e costumes

  "Quando um emanglão respira mal, os seus compatriotas preferem que ele deixe de viver. Por muito que se esforce, consideram que já não pode alcançar a autêntica felicidade. Devido à simpatia natural nos homens, o doente só pode suscitar a desordem na respiração duma cidade inteira.
  Por conseguinte, mas sem nunca se zangarem, estrangulam-no.
  Nas zonas rurais, os habitantes, como são bastante rudes, combinam a coisa entre uns quantos e um belo dia, à noitinha, vão a casa dele e sufocam-no.
  Penetram na cabana, clamando: «Amigos!» Avançam, muito juntinhos, de mão estendida, e aquilo resolve-se num instante. O doente mal tem tempo de se espantar, é logo estrangulado por mãos fortes e decididas, mãos de homens de dever. Depois, placidamente, vão-se embora, e a quem encontram, dizem:
  «Lembra-se de Fulano, que andava com a respiração tão má? De repente ficou sem ela à nossa frente.
  - Ah!», respondem-lhes, e a paz e o sossego voltam à aldeia.
  Nas cidades, porém, a sufocação tem direito a uma cerimónia, singela, de resto, como convém. 
  Para sufocar é escolhida uma jovem bonita e virgem.
  Grande momento para ela, este de ser chamada à ponte entre a vida e morte! A brandura com que tais doente morrem conta a favor da jovem. Porque levar um doente a extinguir-se docemente entre mãos suaves, dizem eles, é um excelente presságio de dedicação às crianças, de caridade para com os pobres e de uma sólida gestão no tocante a bens. A jovem depara logo com muitos mais maridos que os necessários e permitem-lhe até que ela própria escolha.
  A dificuldade consiste em o executante ser suave e, ao mesmo tempo, apertar com força.
  Uma mão elegante não consegue tal proeza, uma violenta também não. Requerem-se sólidas quantidades, uma natureza verdadeiramente feminina.
  Mas que felicidade quando conseguem, e como se compreende as lágrimas de alegria da jovem, enquanto a assistência com emoção a felicita!"

Henri Michaux, O Retiro pelo Risco
(Fenda, 1999)


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