A MÃO NO ARADO
Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e
aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar
os meses e os anos nunca lhe faltará
Oh! como é
triste envelhecer à porta
entretecer
nas mãos um coração tardio
Oh! como é
triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio
azul das extremas manhãs do verão
ao longo do
mar transbordante de nós
no demorado
adeus da nossa condição
É triste no
jardim a solidão do sol
vê-lo desde
o rumor e as casas da cidade
até uma vaga
promessa de rio
e a
pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste
é termos de nascer e morrer
e haver
árvores ao fim da rua
É triste ir
pela vida como quem
regressa e
entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no
Outono concluir
que era o
verão a única estação
Passou o
solitário vento e não o conhecemos
e não
soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios
que sabem onde encontrar o mar
e com que
pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de
palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais
triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é
comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo
e o domingo na tarde de Novembro
e ter como
futuro o asfalto e muita gente
e atrás a
vida sem nenhuma infância
revendo tudo
isto algum tempo depois
A tarde
morre pelos dias fora
É muito
triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó
poeta, administra a tristeza sabiamente
Ruy Belo, Todos os Poemas
Assírio & Alvim, 2009
