20.7.14

Café do molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia 

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe 

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse 

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito 

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.


Manuel António Pina, Poesia Reunida
(Assirio & Alvim, 2001)

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