Da noite adivinha-se perigo. Música silenciada, ferrolhos corridos, persiana descida que não deixa antever o pano de renda que corta em pedaços a luz do candeeiro lá fora.
Deslizam sobre rampa para se irem encolher atrás da muralha de garrafões de vinho dispostos ao acaso, abraçam as pernas e mordem os joelhos para sentir outra dor que não a do frio que se entranha. A recebê-lo, só os olhos semi-cerrados que percorrem a garagem, da janela que no terraço da casa à frente abre e fecha sem cansaço lembrando batida seca de tambor ao portão negro da casa da lenha. Se, por um breve instante, não se tivessem distraído enquanto se olhavam, teriam visto as formas negras que desciam sobre o velho muro onde costumavam passear gatos. Quando finalmente se deixaram, já os tinham a escassos metros, em posição estratégica, espicaçados pelo desejo de vómitos de sangue e braços torcidos. Perna esquerda na dianteira, navalha à altura dos ombros e o que não a segurava caindo em rigidez. Dali a segundos os rostos cobertos respirarão o ar denso e gélido da noite, manchas encarnadas contrastarão com o branco cal de defunto, púrpura negra escorrendo sobre finos lábios rosados. Passo indeciso e olhar fixo, avança a forma negra que sozinha e segura compunha a retaguarda. Quando a menos de pegada de distância, atira-se sobre ela e envolve-a com os braços depois de os ter erguido. Ele havia tropeçado, em quê não sabe, talvez no pedaço de veste que varreu o asfalto ou no toro de madeira que alguém se esqueceu de recolher no Inverno passado, o que importa é que tropeçou e por isso de duas resultou uma, uma massa disforme que se estendeu ali, entre as formas vestidas de negro e o outro que ainda se escondia querendo sair incólume.
Quase sente a lâmina rasgar-lhe quando, e por efeito de segundos a que não assistiu mas algo lhe garante terem passado, experimenta outra sensação. Espreita entre as pernas e descobre-se a ser penetrada. O débil êxito devolveria o fracasso não fosse a súbita aparição da figura paternal que ensina ao detalhe e aponta o lugar das coisas. Movimento mecânico e repetitivo a que ela cede por saber não querer reter, por sentir não conseguir reter, fizesse o que não quisesse fazer. Que depois lhe solte os membros ou lhos arranque a dentes. É indiferente como, desde que a faça sentir alguma coisa, dor ou prazer. Ou dor e prazer. Mais provável assim, já que sempre rompeu em fracasso a tentativa de um sem outra.
Helena.
Deslizam sobre rampa para se irem encolher atrás da muralha de garrafões de vinho dispostos ao acaso, abraçam as pernas e mordem os joelhos para sentir outra dor que não a do frio que se entranha. A recebê-lo, só os olhos semi-cerrados que percorrem a garagem, da janela que no terraço da casa à frente abre e fecha sem cansaço lembrando batida seca de tambor ao portão negro da casa da lenha. Se, por um breve instante, não se tivessem distraído enquanto se olhavam, teriam visto as formas negras que desciam sobre o velho muro onde costumavam passear gatos. Quando finalmente se deixaram, já os tinham a escassos metros, em posição estratégica, espicaçados pelo desejo de vómitos de sangue e braços torcidos. Perna esquerda na dianteira, navalha à altura dos ombros e o que não a segurava caindo em rigidez. Dali a segundos os rostos cobertos respirarão o ar denso e gélido da noite, manchas encarnadas contrastarão com o branco cal de defunto, púrpura negra escorrendo sobre finos lábios rosados. Passo indeciso e olhar fixo, avança a forma negra que sozinha e segura compunha a retaguarda. Quando a menos de pegada de distância, atira-se sobre ela e envolve-a com os braços depois de os ter erguido. Ele havia tropeçado, em quê não sabe, talvez no pedaço de veste que varreu o asfalto ou no toro de madeira que alguém se esqueceu de recolher no Inverno passado, o que importa é que tropeçou e por isso de duas resultou uma, uma massa disforme que se estendeu ali, entre as formas vestidas de negro e o outro que ainda se escondia querendo sair incólume.
Quase sente a lâmina rasgar-lhe quando, e por efeito de segundos a que não assistiu mas algo lhe garante terem passado, experimenta outra sensação. Espreita entre as pernas e descobre-se a ser penetrada. O débil êxito devolveria o fracasso não fosse a súbita aparição da figura paternal que ensina ao detalhe e aponta o lugar das coisas. Movimento mecânico e repetitivo a que ela cede por saber não querer reter, por sentir não conseguir reter, fizesse o que não quisesse fazer. Que depois lhe solte os membros ou lhos arranque a dentes. É indiferente como, desde que a faça sentir alguma coisa, dor ou prazer. Ou dor e prazer. Mais provável assim, já que sempre rompeu em fracasso a tentativa de um sem outra.
Helena.
