Pó cor violeta sobre a erva estendida em finos lençóis verdes.
Fios atados rasgam o céu da primavera jovem achando-se mais próximos do que os demais, mais do que os bichos que das sebes erguidas por toros em madeira talhada pelo artesão fazem dormitórios, mais do que foi gota apressada descendo a folha de cerejeira, mais do que será pedra escaldada quando o sol irromper pela húmida neblina com a força de um prematuro.
Três. Depois chegam dois que se juntam a dois dos que se acham mais próximos. Seguem lado a lado, quase se tocam, conseguem cheirar-se. Avançam-nos com destreza, aos que se deixam ficar para trás rendidos.
Vai sentado o homem que minutos antes segurou o caixão onde dorme o corpo da mulher.
Dos olhos vertem-lhe lágrimas.
Não pelo que foram traços entranhados e formas graciosas e agora não mais do que carne podre e bolorenta unida por agulha e linha.
Dos olhos vertem-lhe lágrimas.
Não pelo sufoco de palavras abafadas ou pela corrosão das que foram empurradas ou pelo cansaço das que quis pensadas. É-isso-di-lo-queres-dizê-lo-por-que-raio-não-o-dizes vezes e vezes a que com o tempo perdeu a conta em momentos e momentos que nem a contar se atreveu.
Dos olhos vertem-lhe lágrimas.
Pelos serões em que a deixou sozinha, cotovelos em ferida apoiados no granito arrefecido e sobre o regaço guardanapo perfeitamente engomado condizente com a toalha de mesa em linho, antes de vê-la tirar as medidas para que da faca ao garfo fosse metade do que ia de cada um deles à extremidade do prato.
Dos olhos vertem-lhe lágrimas.
Pelas meninas que desvirginou e pelas mulheres que consolou a troco de pouco mais de nada.
Dos olhos vertem-lhe lágrimas. Por aquelas que nunca chorou quando a tinha consigo, por aquelas que acreditou esconder quando ela fingia dormir a seu lado, ouvindo-o soluçar.
Helena.
