Em voo picado sobre a pedra lascada da rua que o abraço das casas térreas parece estreitar.
Engolido pela esquina o último carro, corta a estrada na diagonal e caminha como quem une os pontos de um semi-círculo ao largo da estação. Ei-lo , a quatro palmos e um passo. Sorriso de contornos desenhados, palavras corroídas pelo uso, gestos treinados. Desnecessárias notas de boas-vindas no quinhão de terra que partilha, com indicações vagas e difusas. Some-se-lhe a rede mas vale-se dos punhos para amparar a queda que viria precoce. Outras notas soltas quando ele aparece como se esculpido na paisagem urbana, quase invisível não fosse a ramagem envelhecida que deixa entrever a porta de madeira riscada. Denuncia-o a luz dos candelabros que empresta ao ambiente interior uma leve tensão entre corpos que se roçam como animais por altura do cio sobre o veludo do sofá, que se fingem atentos ao puzzle de escultura romana fragmentado pelo salão enquanto se imaginam peças unidas em figura orgásmica , que atraem a presa até seus aposentos sob o pretexto de revisitar aquele clássico adormecido na estante. Ou nunca acordado. E votado ao eterno repouso porque do átrio ao quarto vai um girar sobre calcanhares do dito erudito.
Ouço sons que lhe saem da boca. Ou suponho que saiam, porque a vejo abrir e fechar, entre esgares de prazer e trejeitos de orador eloquente que escolheu a dedo alguém que não reconhece o olhar que a procura nem o dedo que se arrasta timidamente na pele seca.
Cigarro atrás de cigarro queimado na tola esperança de que a nuvem carregada de fumo devolva outro rosto que não este que fito.
Helena.
