Alguém soprou dele o negro que havia emprestado à noite recém-chegada o ar carregado com o teu discernimento e a minha demência. Hoje, hoje cinza fosco e tosco, cinza frouxo, sem vigor, quase branco. Pintaram-no assim na esperança de que ao ser dossel em noite fria não deixaria esquecer o negro que antes cobria olhares, sorrisos, gestos, beijos. Imaginados. Uma e outra vez imaginados. Sempre imaginados. E usados, sem aviso nem licença.
Mas hoje, hoje companheiro das dores, vestiu-se bem discreto para afugentar fantasias arrojadas de menina pelo beiço. Devolve sem cobrar a sabedoria do velho que se arrasta, a clareza do sábio a quem já nada consegue surpreender, a prática do manuel que ora vem ora vai e acode as donas maria e a seus males demoníacos. De pé, a meio passo dele, ela está tímida e segura pela ombreira não vá o diabo tecê-las e nem fechar de olho para ter o safado à perna com tesão mal disfarçado.
Ouve que o segredo minha menina é não vergar, resistir sempre sempre sempre e nem uma vez hesitar no caso de ter de dar à torcedura. Lições de vida estas que partem da boca da latrina e chegam ao chuveiro que lembra um caule já flácido e fazem ainda escala na pia com espuma de barbear ressequida.
E ela, bem, ela lá o escuta, muito atenta, verdadeiramente atenta, porque ele está muito convencido, verdadeiramente convencido de que o segredo é não vergar e sabedoria é tudo o que não lhe falta.
Não conhece este homem que curvado pelo peso do mundo se recusa a vergar perante um único cano nem conhece a ti, homem que curvado pelo peso do pensamento a faz querer sair da ombreira e abraçar a rua. Não conhece qualquer um dos dois mas nem por isso irá vergar.
Helena.
