"Eis por que se diz que o sábio vive quanto deve e não quanto o poderia; e o que de melhor recebemos da natureza e que nos tira todo o direito de queixa é a possibilidade de desaparecer quando bem quisermos. Criou ela um só meio de entrar na vida, mas cem de sair. Podemos carecer de terras para viver; não nos faltam para morrer. [...] E não se trata de receita para uma só doença. A morte é um remédio para todos os males, é um porto de inteira segurança que não é de se temer jamais e sim de se procurar não raro. Tudo consiste nisto: que o homem decida acabar, que corra à frente do seu fim ou o aguarde, é sempre ele que está em causa: em qualquer ponto que se rompa o fio, ei-lo fora do jogo. [...] A morte voluntária é a mais bela. A nossa vida depende da vontade de outrem; a nossa morte, da nossa. Em nenhuma coisa, mais do que nesta, temos liberdade para agir."
Montaigne
