16.1.11

"Os seus sentidos estonteavam sob os vapores, o fedor acre dos bodes, a emanação dos corpos arquejantes, um hálito dir-se-ia de águas chocas e um outro cheiro ainda, bem familiar: a feridas e doença iminente. Ressoavam os timbales e o seu coração troava, o seu cérebro rodopiava, invadia-o a fúria, a cegueira, uma volúpia atordoante, e a sua alma ansiava associar-se à ronda da divindade. O símbolo obsceno, gigantesco, de madeira, foi liberto do seu véu e erguido no ar ao mesmo tempo que, em berraria desenfreada, pronunciavam a palavra do rito. De lábios escumeantes, bramavam, excitavam-se uns aos outros com trejeitos lúbricos e mãos gesticulantes, rindo e gemendo, espetavam-se mutuamente as pontas de ferro na carne e lambiam o sangue que lhes corria dos membros. Mas o sonhador estava agora com eles e entregava-se ao deus estranho. Sim, encarnava-se em cada um deles, quando estes se precipitavam em intento de fúria e massacre sobre os animais e engoliam farrapos fumegantes de pele, quando sobre o musgo espezinhado teve início uma orgia de promiscuidade, em oferenda ao deus. E a sua alma conheceu a luxúria e o delírio da queda."


Thomas Mann, Morte em Veneza.

Arquivo do blogue