Não é de ser-se amado que a saudade
amargamente é podre quando o tempo passa:
mas de ter desejado ter podido
não só dar o prazer que alguém esperava
mas mais do que o esperado; e sobretudo
ter sido objecto do desejo alheio
e de o servir no gosto de acendê-lo
e de esgotá-lo e de reacendê-lo ainda
como o corpo entregue e tudo o que nele sente
atentamente guiando esse desejo de outrem.
Em sonhos e memórias isto volta:
e nem lembrar os gestos de ternura
ou o olhar tímido, por muito amor,
ou os silêncios contra a solidão,
sequer nos basta para disfarçar
o cheiro a fruta podre que o desejo
deixa no vácuo da velhice próxima.
Jorge de Sena, Visão Perpétua
