16.2.11

"Os edifícios esvaziados dos seus autómatos são ainda mais desolados do que túmulos, e as máquinas inactivas criam um vazio mais profundo do que a própria morte. Sentia-me como um fantasma a movimentar-se no vácuo. Sentar-me, parar e acender um cigarro, não me sentar, não fumar, pensar ou não pensar, respirar ou deixar de respirar, eram uma e a mesma coisa. Cai morto e o homem que vem atrás passa-te por cima; grita e acordarás os mortos, os quais, por estranho que pareça, também têm pulmões fortes. O trânsito segue agora para este e oeste; daqui a um minuto seguirá para norte e sul. Processa-se tudo cegamente de acordo com as normas e ninguém chega a lado algum. Guinam e cambaleiam a entrar e a sair, e investem como mosquitos. Come de pé com máquinas automáticas, alavancas, moedas engorduradas, celofane engordurado, apetite engordurado. Limpa a boca, arrota, palita os dentes, inclina o chapéu, caminha pesadamente, escorrega, cambaleia, assobia, estoira os miolos. Na próxima vida serei um abutre e alimentar-me-ei de carniça suculenta: empoleirar-me-ei no telhado dos edifícios altos e mergulharei como um bala assim que me cheirar a morte."

Henry Miller, Sexus
(Círculo de Leitores, 1975)

Arquivo do blogue