«Observava que ela parecia estar num estado de tensão fora do habitual. Todavia, quando me anunciou a grande notícia a propósito de Entre os Actos, levei isso à conta da sua excitação. Começou a falar com uma agitação incrível, dizendo que o livro de maneira nenhuma estava bem e que era absolutamente impossível publicá-lo. Leonard afirmava-lhe o contrário e como eu tivesse pedido que me autorizassem a ler o manuscrito para poder dar a minha opinião, ela concordou em enviar-mo logo que regressasse ao campo. Queixava-se, ao mesmo tempo, de não ter nada que fazer e pediu-me para lhe enviar alguns dos manuscritos que chegavam para New Writing. Lembrando-me mais tarde do seu pedido, quando a tragédia aconteceu, compreendi que a sua necessidade de ter qualquer coisa com que se ocupar e susceptível de apaziguar o seu espírito, era já de uma terrível urgência.
«Alguns dias mais tarde, recebi a cópia dactilografada de Entre os Actos, acompanhada de uma carta reiterando as suas dúvidas e atribuindo-me o papel de árbitro (...) A dactilografia e mesmo a ortografia eram ainda mais excêntricas do que em qualquer dos seus outros manuscritos: isso e as correcções que ela fizera em todas as páginas provocaram-me uma impressão extraordinária, como se uma corrente de alta tensão tivesse passado entre os seus dedos. Mas não tinha a menor dúvida acerca do êxito do livo e da necessidade de o publicar. Mandei-lhe um telegrama na manhã seguinte a comunicar-lho. Era tarde de mais. A crise tinha começado, Virginia estava seriamente doente e compreendia, tal como Leonard, que não seria capaz de rever o seu trabalho antes de estar curada. "Peço-lhe perdão, escrevia-me ela, e acredite que estou a fazer o melhor que posso". Num embrulho à parte devolveu-me os manuscritos que eu lhe enviara, com relatórios críticos lúcidos e penetrantes. Foi o seu último trabalho para a Hogarth Press e para mim. No momento em que recebi a encomenda, Virginia Woolf estava morta.»
