De um portuense a uma jovem que conheceu em Lisboa quando veio ver o «glorioso» apanhar uma abada no estádio da Luz
Adorábel Etelbina:
Durante toda a biagem para o Porto, conserbei nos olhos a tua sedutora imágem e nem a cabazada com que o meu clube alombou me fez esquecer os agradábeis momentos que passámos juntos na linda praia de Carcabelos, apesar da poluiçom que por lá bai mas que felizmente ainda num chegou cá ao Castelo do Queijo.
E por falar em queijo, Bininha o teu... sorriso dibinal num me sai dos cornos e até de noite acordo a pensar nele e a atormentar o espírito sem incontrar o desejado alíbio, pois estar sòzinho é uma gaita e num dá puto de jeito.
Inquanto eu estibe aí na marmelada contigo, Bininha, o tempo passou tom de pressa e estábamos os dois com tamanha foçanguice que nem pude dizer-te o que me ia no coraçom, mas a berdade, filha, é que estou caído por ti como o caraças; apanhaste-me agachado, como se costuma dizer.
Bem sei que, na tua ideia, eu só estaba aí para tirar uns troços balentes e, na berdade, foi assim que a coisa começou... mas desta bez lixei-me, Bininha; a paixom deu-me a baler e tenho a impressom que num posso continuar a biber sem ti e neste desassossego, que até chego ao emprego com olheiras de dormir mal. O melhor é a gente resolber-se a dar o nó... que já houve quem o tibesse feito com muito menos razom.
Se achas que num sou morcom demais para ti e se num te assusta bir aqui para a Inbicta apanhar chuba e oubir palabrões, escrebe-me na bolta do correio que eu, quando o «Glorioso» aí boltar para o jogo com o Atlético, bou outra bez na excursom para combinarmos essa gaitada toda. Mas até lá, Bininha, num armes em bibaça e libra-te de andares por aí a dá-lo, metida com essa gajada da corda, que eu num sou meco para aparar desses golpes.
Este que te ama e tem o mais bibo desejo de boltar a ver-te de novo.
Pedro H. Melo
José Vilhena, A Caneta dos Amantes (1972)
