De um vendedor de produtos farmacêuticos a uma viúva
Minha Senhora
Amo-a profundamente e com todas as veras da minha alma como só um ardente apaixonado será capaz. Mas também sei que, sendo V. Ex.ª uma jovem e honesta viúva e, este seu criado, vendedor de produtos farmacêuticos, uma ligação entre ambos seria sempre mal vista à luz da moral e da sociedade e não só o meu enamorado intento como a sua amável anuência, mereceriam severo julgamento.
«O que é que vão fazer juntos aquela viúva e aquele vendedor de fármacos?» - interrogar-se-iam amigos e conhecidos - «Que raio de ideia pré-concebida teriam eles para se casarem um com o outro?»
E, sinceramente, não vejo, minha senhora, o que poderíamos responder perante tão justas e pertinentes questões...
Quando do seu primeiro consórcio com o defundo senhor Costa, as circunstâncias eram completamente diversas, pois V. Ex.ª não era viúva e o seu senhor marido não era vendedor de produtos farmacêuticos mas um conceituado funcionário do Montepio, com brilhante folha de serviços no activo...Circunstâncias que, infelizmente, não se repetem agora para nosso infortúnio e tormento.
E, sendo assim, que fazer, minha senhora? Como dar satisfação aos apelos dos nossos corações sem desafiar a sociedade, de cuja condenação nunca se fica impune? Como conciliar coisas que se apresentam tão antagónicas como os nossos desejos e as regras de convívio social?
Uma coisa é certa: V, Ex.ª está na flor da vida, é possuidora de todos os deslumbrantes atributos da juventude - o que se diz uma lasca, se me permite a ousadia da expressão - e nem o próprio Deus pode querer que permaneça nessa triste e perpétua viúvez...pois foi Ele mesmo quem tão generosamente a dotou de encantos físicos e sex appeal.
Mas, por outro lado, não creio que consiga encontrar outro marido com méritos e qualidades semelhantes àqueles com que a natureza favoreceu o falecido Sr. Costa, e, substitui-lo assim, sem mais nem menos, por um calhordas qualquer, seria uma verdadeira afronta a quem tanto lhe quiz nesta vida.
De forma que, pensando e repensando no assunto, minha senhora, não vejo melhor solução para este cruel dilema do que V. Ex.ª ostentar, durante o dia, a compostura da viúva fiel e inconsolável, e procurar, durante a noite, o afecto de alguém que a ajude a mitigar a falta do esposo amantíssimo e lhe proporcione os momentos de terna felicidade a que a sua juventude tem irrecusável direito.
E esse alguém, permita-me a atrevida sugestão, poderia ser este sincero e devotado admirador da sua beleza, que, qual cavaleiro andante, estaria ao seu serviço todas as noites a partir das onze, onze e picos, para a deixar, de novo viúva e solitária, às nove da manhã, mas bem disposta, saudável, descontraída e atestada de cálcio por todo o dia.
Durante essas horas de inefáveis sensações (pequeno almoço incluído) poderia mostrar-lhe quanto a ama e como é capaz de fazê-la feliz, minha senhora, o mais fiel e ardente dos seus apaixonados.
Fernando Cansado do Rio
