4.5.11

"Qual o significado de uma alvorada na cidade para um homem velho, parado no meio da rua e a olhar meio tonto para o céu? A alvorada é uma espécie de empalidecer do céu; uma espécie de renovação. Um outro dia, uma outra sexta-feira, um outro vinte de Março, Janeiro ou Setembro. Um outro despertar geral. As estrelas recolhem-se e extinguem-se. As barras tornam-se mais profundas por sobre as ondas. Um filtro de nevoeiro adensa-se por sobre os campos. O vermelho condensa-se nas rosas, até mesmo naquela bastante pálida, por cima da janela do quarto. Um pássaro chilreia. Os lavradores acendem as primeiras velas. Sim, trata-se do eterno renascer, de uma incessante ascensão e queda.
Sinto que até mesmo para mim a onda se eleva. Incha; dobra-se. Tomo consciência de um novo desejo, de qualquer coisa que se ergue em mim como um cavalo orgulhoso, cujo montador esporeou antes de obrigar a parar. Que inimigo vemos avançar em direcção a nós, tu, a quem agora monto enquanto desço este caminho? É a morte. É ela o inimigo. É contra a morte que ergo a minha lança e avanço com o cabelo atirado para trás, tal como se este pertencesse a um jovem, ao Percival a galopar na Índia. Esporeio o cavalo. É contra ti que me lanço, resoluto e invencível, Morte!
As ondas quebram-se na praia."


As Ondas, de Virginia Woolf (Colecção Mil Folhas, 2002)

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