6.6.11

"De vez em quando interrompo o meu trabalho e vou à janela. O céu está completamente vazio e nós, os velhos de Ombrosa, habituados a viver sempre sob aquelas verdes cúpulas, temos uma certa dificuldade em olhar directamente para o céu. Dir-se-ia que as árvores nunca mais cresceram após a partida do meu irmão ou desde que os homens foram tomados por aquela fúria destruidora. Além disso, a vegetação mudou: desapareceram os álamos, as faias, os robles: agora a África, a Austrália, as Américas e as Índias alongam até aqui os seus ramos e raízes. As árvores antigas refugiaram-se algures: sobre as colinas há ainda oliveiras e, nos bosques dos montes, pinheiros e castanheiros; junto à costa, porém, é uma Austrália vermelha de eucaliptos, elefantesca de ficus, de árvores de jardim enormes e solitárias, e tudo o resto são palmeiras, com os seus topos tufados e troncos nus, inóspitas árvores do deserto.
Ombrosa já não existe. Olhando o céu sombrio, pergunto a mim mesmo se alguma vez terá existido. Aquela pujança de ramos e folhas, bifurcações, penugens sem fim e o céu somente entrevisto a espaços irregulares e em retalhos talvez fosse assim só de propósito para que sob ele vivesse o meu irmão, com o seu ligeiro passo de esquilo; era um bordado feito de nada, assemelhando-se a este fio de tinta que sai da minha pena e que deixei correr livremente por páginas e páginas, cheio de riscos, emendas, traços nervosos, manchas, lacunas, e que por momentos se estende em grossas bagas muito claras, outras vezes se recolhe em sinais minúsculos e tímidos, como pequenas sementes, que se dobra sobre si mesmo ou se bifurca, ou ainda descreve partes de frases com contornos de folhas ou de nuvens, e depois se encontra novamente, e novamente também volta a enredar-se, e corre, corre, e continua correndo, torna-se mais espesso, cresce num último cacho insensato de palavras, ideias, sonhos, e termina."

O Barão Trepador, de Italo Calvino (Biblioteca Visão, Colecção Novis, 2000)

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