13.6.11

"Era ela quem confiava nele, que insistia em confiar nele, como quando insistia que comesse: conspirativamente, em segredo, fazendo um segredo do próprio facto que o acto de confiar deveria exemplificar.
Era o trabalho duro que ele odiava, não o castigo nem a injustiça. Já estava habituado a isso mesmo antes de os ter conhecido. Não esperava melhor, e por isso não estava ofendido nem surpreendido. Tratava-se da mulher: era aquele carinho suave, do qual ele acreditava que seria uma eterna vítima e que odiava muito mais do que a dura e impiedosa justiça dos homens. «Ela tenta fazer-me chorar», pensava, enquanto estava deitado hirto e frio no seu leito, as mãos por trás da cabeça, o corpo iluminado pelos raios do luar, ouvindo o murmúrio contínuo da voz do homem, quando ela subia pelas escadas em direcção ao seu palco apontado para o céu. «Ela tentava fazer-me chorar. Porque pensa que é assim que eles me conseguirão apanhar.»

A Luz em Agosto, de William Faulkner (Biblioteca Visão, Colecção Novis, 2000)

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