"(...) Ele começou a ter medo. Não conseguia dizer de quê. Mas começou a ver-se a si próprio com um certo distanciamento, como um homem a ser sugado para um pântano sem fundo. Ainda não formulara exactamente esse pensamento. O que ele via agora era a rua solitária, rude e fria. Assim era: fria. Às vezes, pensava, falando em voz alta, «É melhor ir-me embora. O melhor é desaparecer daqui.»
Mas havia algo que o agarrava, como qualquer fatalista pode sempre ser agarrado: através da curiosidade, do pessimismo ou da pura inércia. Entretanto,a relação prosseguia, submergindo-o cada vez mais sob a fúria imperiosa e assoladora daquelas noites. Talvez ele percebesse que não conseguiria escapar. De qualquer modo, ficou, observando as duas criaturas em luta dentro daquele único corpo, como duas silhuetas iluminadas por raios lunares lutando, afogando-se, alternando-se em convulsões à superfície de uma lagoa negra e viscosa, sob a última lua. Ora era aquela figura calma, fria, contida da primeira fase que, não obstante perdida e amaldiçoada, permanecia de algum modo impenetrável e inexpugnável; ora era a outra, a segunda figura, que numa negação furiosa daquela inexpugnabilidade se esforçava por afogar no negro abismo da sua própria criação aquela pureza física que fora preservada por demasiado tempo para poder perder-se. De vez em quando elas emergiam na negra superfície, abraçadas como duas irmãs, e as águas negras escoavam-se. Então o mundo apressava-se a surgir de novo: o quarto, as paredes, o som pacífico de miríades de insectos no Verão, por trás das janelas onde esvoaçavam insectos há quarenta anos. Ela olhava então fixamente para ele, com a expressão frenética e desesperada de uma estranha; ele observava-a então, parafraseando para si próprio: «Ela quer rezar, mas também não sabe como fazer isso.»"
A Luz em Agosto, de William Faulkner (Biblioteca Visão, Colecção Novis, 2000)
