4.7.11

"Assim, a primeira coisa que a peste trouxe aos nossos concidadãos foi o exílio. E o narrador está persuadido de que pode escrever aqui, em nome de todos, o que ele próprio sentiu então, visto que o sentiu ao mesmo tempo que muitos dos nossos concidadãos, pois era bem o sentimento do exílio esse vazio que trazíamos constantemente em nós, essa emoção precisa, o desejo inconsistente de voltar atrás ou, pelo contrário de acelerar a marcha do tempo, essas setas ardentes da memória. Se algumas vezes dávamos largas à imaginação e nos comprazíamos em esperar pelo toque de campainha do regresso ou uns passos familiares na escada, se nesses momentos consentíamos em esquecer que os comboios estavam imobilizados, se nos arranjávamos para ficar em casa à hora a que normalmente um viajante trazido pelo comboio podia chegar ao nosso bairro, esses jogos, bem entendido, não podiam durar. Chegava sempre um momento em que nos apercebíamos claramente de que os comboios não chegavam. Sabíamos então que a nossa separação estava destinada a durar e que devíamos tentar entender-nos com o tempo. A partir de então, reintegrávamo-nos, em suma, na nossa condição de prisioneiros, estávamos reduzidos ao nosso passado, e, ainda que alguns de nós tivessem a tentação de viver no futuro, rapidamente renunciavam, tanto pelo menos quanto lhes era possível, ao experimentarem as feridas que a imaginação finalmente inflige àqueles que nela confiam."

A Peste, de Albert Camus (Edição «Livros do Brasil»)

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