"Já se compreendeu que isso consistia em renunciarem ao que tinham de mais pessoal. Enquanto nos primeiros tempos da peste se surpreenderiam com a quantidade de pequenas coisas que contavam muito para eles, sem terem qualquer existência para os outros, e faziam assim a experiência da vida pessoal, agora, pelo contrário, só se interessavam por aquilo que interessava aos outros, já não tinham senão ideias gerais e o seu próprio amor tinha tomado para eles a forma mais abstracta. Estavam a tal ponto abandonados à peste que lhes acontecia por vezes não terem esperanças senão no seu sono e surpreenderem-se a pensar: «Venham os tumores e acabemos com isto!» Mas dormiam já, na realidade, e todo este tempo não foi mais que um longo sono. A cidade estava povoada por adormecidos-acordados, que não escapavam realmente à sua sorte, a não ser nos raros momentos em que, de noite, a sua ferida aparentemente fechada se abria bruscamente. E, acordados em sobressalto, apalpavam então, como distraídos, os bordos irritados dessa ferida, reencontrando num relâmpago o seu sofrimento, subitamente rejuvenescido, e, com ele, a imagem perturbada do seu amor. De manhã voltavam ao flagelo, quer dizer, à rotina."
A Peste, de Albert Camus
(Livros do Brasil)
