5.7.11

"Contudo, havia na cidade um homem que não parecia nem esgotado nem desanimado e continuava a ser a imagem viva da satisfação. Era Cottard (...) A opinião geral de Tarrou sobre o pequeno capitalista resumia-se neste juízo: «É uma personagem que cresce.»
(...)
Prefere estar cercado por todos a estar preso sozinho.
Em vão eu lhe disse que a única maneira de não estar separados dos outros, era no fim de contas, ter uma consciência limpa. Ele olhou-me com maldade e disse: «Então, por esse modo, ninguém está nunca com ninguém». E depois: «Dê-lhe as voltas que quiser, sou eu quem lho diz. A única maneira de pôr as pessoas juntas é ainda mandar-lhes a peste. Olhe à sua volta.» E, na verdade, eu compreendo bem o que ele quer dizer e quanto a vida de hoje deve parecer-lhe confortável. Como não havia ele de reconhecer reacções que foram as suas; a tentativa que cada um faz para ter toda a gente consigo; a gentileza que se prodigaliza para informar por vezes um transeunte perdido e o mau humor com que se atende de outras vezes; a precipitação das pessoas para os restaurantes de luxo, o seu prazer em lá se encontrarem, em lá se demorarem; a afluência desordenada que faz bicha, todos os dias, no cinema, que enche as salas de espectáculos e os próprios dancings, que se espalha como uma maré à solta em todos os lugares públicos; o recuo perante todo o contacto, o apetite de calor humano que impele entretanto os homens uns para os outros, os cotovelos para os cotovelos, os sexos para os sexos? Cottard conheceu tudo isso antes dele, é evidente. Excepto as mulheres, porque, com a sua cabeça... E suponho que quando se sentiu tentado a ir às casas de raparigas se recusou para não ganhar uma fama que podia prejudicá-lo no futuro.
Em suma, a peste convém-lhe. De um homem solitário que não queria sê-lo ela fez um cúmplice, pois que, visivelmente, ele é um cúmplice, e um cúmplice que se deleita."

A Peste, de Albert Camus
(Livros do Brasil)

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