10.7.11

"Durante o dia, podia pensar no recurso da sentença. Julgo que tirei o melhor partido possível desta ideia. Calculava os meus efeitos e obtinha assim destas reflexões o melhor dos rendimentos. Começava sempre pela suposição mais pessimista: o recurso é rejeitado. «Pois bem, morrerei». Mais cedo do que os outros, evidentemente. Mas todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, não ignorava que morrer aos trinta ou aos setenta anos tanto faz, pois em qualquer dos casos outros homens e outras mulheres viverão, e isto durante milhares de anos. No fim de contas, isto era claro como a água. Hoje ou daqui a vinte anos, era à mesma eu, que morria. Neste momento, o que me incomodava um pouco no meu raciocínio, era esse frémito terrível que me percorria, ao pensar nesses vinte anos para a frente. O que tinha a fazer era abafar esta sensação, imaginando o que seriam os meus pensamentos daqui a vinte anos, quando chegasse outra vez à hora da morte."

O Estrangeiro, de Albert Camus
(Livros do Brasil)

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