"Recusei-me, pela terceira vez, a receber o capelão. Não tenho nada a dizer-lhe, não me apetece falar, tenho muito tempo para o ver. O que neste momento me interessa é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída. Mudaram-me de cela. Desta, quando me estendo na cama, vejo o céu, apenas o céu. Os meus dias inteiros, passo-os a olhar na sua face o declínio das cores que conduz o dia à noite. Deitado, ponho as mãos debaixo da cabeça e espero. Já não sei quantas vezes perguntei a mim próprio se havia exemplos de condenados à morte que tivessem escapado ao mecanismo implacável, desaparecido antes da execução e fugido ao cordão de polícias. Censurava-me por não ter prestado atenção suficiente às histórias de execuções. (...) Poderia ter sabido que, pelo menos num caso, a roda se tinha detido e que, nesta irresistível precipitação, o acaso e a sorte, uma única vez, haviam desempenhado um papel. Uma única vez! Por um lado, creio bem que isto me chegaria. O meu coração faria o resto. (...) O que contaria seria uma possibilidade de fuga, um salto para fora do rito implacável, uma louca corrida, com todas as probabilidades da esperança. A esperança, possivelmente, seria ser abatido em plena corrida por uma bala. Mas, bem vistas as coisas, nada me permitia este luxo, tudo mo proibia, a engrenagem reconquistava-me."
O Estrangeiro, de Albert Camus
(Livros do Brasil)
