"O romance de tese, a obra que prova, a mais odiosa de todas, é a que a maior parte das vezes se inspira num pensamento satisfeito. Mas isso são ideias que alguém lança, e as ideias são o contrário do pensamento. Esses criadores são filósofos envergonhados. Aqueles de que falo ou que imagino são, pelo contrário, pensadores lúcidos. Em certo ponto onde o pensamento volta a si próprio, erguem eles as imagens das suas obras, como símbolos evidentes de um pensamento limitado, mortal e revoltado. Tais imagens talvez provem qualquer coisa. Mas essas provas dão-nas os romancistas a si próprios, mais do que as fornecem. O essencial é que triunfem no concreto, e que seja essa a sua grandeza. Esse triunfo todo carnal foi-lhes preparado por um pensamento, onde os poderes abstractos foram humilhados. Quando o são em absoluto, a carne faz do mesmo passo resplandecer a criação, com todo o seu brilho absurdo.
Todos os pensamento que renunciam à unidade exaltam a diversidade. E a diversidade é o local da arte. O único pensamento que liberta o espírito é aquele que o deixa só, certo dos seus limites e do seu fim próximo. Nenhuma doutrina o solicita. Ele espera o amadurecimento da obra e da vida. Separada dele, a primeira fará ouvir, uma vez mais, a voz levemente ensurdecida de uma alma para todo o sempre liberta de esperança. Ou nada fará ouvir, se o criador, cansado do seu jogo, pretende afastar-se. Tudo isso se equivale."
O Mito de Sísifo, de Albert Camus (Editora Livros do Brasil, 2007)
