11.8.11

"Fui ejectado do Mundo como uma bala. Desceu um nevoeiro denso e a Terra toda está besuntada de gordura congelada. Sinto a cidade palpitar, como se fosse um coração acabado de tirar de um corpo quente. As janelas do meu hotel supuram e sente-se um cheiro forte e acre, como de substâncias químicas em combustão. Olho para o Sena e vejo lama e desolação, candeeiros de iluminação pública a afogarem-se, homens e mulheres morrendo asfixiados, as pontes cobertas de casas, matadouros de amor... Está um homem de pé encostado a uma parede, com um acordeão amarrado à barriga; tem as mãos cortadas pelos pulsos, mas o acordeão agita-se entre os cotos como um saco cheio de cobras. O Universo minguou, está reduzido ao tamanho de um quarteirão e não tem estrelas, nem árvores, nem rios. As pessoas quem moram aqui estão mortas; fazem cadeiras em que outras pessoas se sentam, em sonhos. No meio da rua está uma roda e do cubo da roda ergue-se uma forca. Pessoas já mortas tentam freneticamente subir à força, mas a roda gira demasiado depressa..."

Trópico de Câncer, de Henry Miller (Colecção Mil Folhas, Público, 2003)

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