13.8.11

"No meridiano do tempo não há injustiça: há apenas a poesia do movimento a criar a ilusão da verdade e do drama. Se em qualquer momento e em qualquer parte nos encontramos cara a cara com o absoluto, a grande simpatia que faz parecerem divinos homens como Gautama e Jesus esfria; o monstruoso não é que homens tenham criado rosas a partir do monte de esterco e sim que, por qualquer razão, tenham querido rosas. Por qualquer razão, o homem espera o milagre, e para o conseguir é capaz de abrir caminho atolado em sangue. Corromper-se-á com ideias, reduzir-se-á a uma sombra, se ao menos durante um segundo da sua vida puder fechar os olhos à hediondez da realidade. Suporta-se tudo - desgraça, humilhação, pobreza, guerra, crime, ennui - na crença de que da noite para o dia acontecerá qualquer coisa, um milagre que tornará a vida tolerável. E entretanto um contador funciona interiormente e não há mão alguma que lhe possa chegar e desligá-lo. E entretanto alguém está a comer o pão e a beber o vinho da vida, alguma barata imunda e gorda de algum padre que se esconde na cave a atafulhar-se, enquanto cá em cima, na luz da rua, um conviva fantasma une os lábios e o sangue é pálido como água. E dos intermináveis tormento e miséria não emerge nenhum milagre e nem sequer um vestígio microscópico de alívio. Somente ideias que saem como bile, como as entranhas de um porco quando se lhe abre a carcaça.
E por isso penso que grande milagre seria se esse milagre que o homem espera eternamente não fosse afinal nada mais do que dois enormes cagalhões que o fiel discípulo largou no bidé. Se, no último momento, quando a mesa do banquete está posta e os címbalos chocam, aparecesse de súbito, e absolutamente sem aviso algum, uma bandeja de prata na qual até os cegos vissem não haver mais, e nada menos, do que dois enorme troços de merda. Estou convencido de que isso seria mais miraculoso do que tudo quanto o homem tem esperado. Seria miraculoso porque não teria passado pela cabeça de ninguém. Seria até mais miraculoso do que o mais louco sonho, porque toda a gente podia imaginar a possibilidade, mas nunca ninguém a imaginou, e provavelmente ninguém voltará jamais a imaginá-la.
De certo modo, a consciência de que não havia nada a esperar exerceu em mim um efeito salutar. Durante semanas e meses, durante anos, na realidade durante toda a minha vida, esperara que acontecesse qualquer coisa, qualquer evento extrínseco que alterasse a minha vida, e eis que de súbito, inspirado pela absoluta desesperança de tudo, me senti aliviado, como se me tivessem tirado de cima uma grande peso. De madrugada despedi-me do jovem hindu, depois de lhe dar um encosto de alguns francos, os suficientes para pagar um quarto. Ao dirigir-me para Montparnasse resolvi deixar-me flutuar com a maré, não oferecer a mínima resistência ao dano, fosse qual fosse a forma em que ele se apresentasse. Nada do que até então me acontecera chegara para me destruir; nada fora destruído a não ser as minhas ilusões. Eu estava intacto. O Mundo estava intacto. Amanhã poderia haver uma revolução, uma peste, um terramoto; amanhã poderia não restar uma única alma para a qual uma pessoa se voltasse em busca de compreensão, de auxílio, de fé. Parecia-me que a grande calamidade já se manifestara, que nunca poderia estar mais verdadeiramente só do que naquele momento. Tomei a decisão de não me prender a nada, de não esperar nada, de, futuramente, viver como um animal, como um predador, um vagabundo, um saqueador. Mesmo que fosse declarada guerra e me calhasse em sorte ir, agarraria na baioneta e cravá-la-ia, cravá-la-ia até ao fim. E se a violentação estivesse na ordem do dia, violentaria, e violentaria com um sentimento de vingança. Naquele próprio momento, no sereno alvoraçar de um novo dia, não estava a Terra tonta de crime e angústia? A incessante marcha da História alterara vitalmente, fundamentalmente, um só elemento que fosse da natureza humana? O homem tinha sido traído por aquilo a que chamava a melhor parte da sua natureza, mais nada. Nos extremos limites do seu ser espiritual estava de novo nu como um selvagem. Quando encontrava Deus, por assim dizer, estava limpinho, despojado, era um esqueleto. Temos de nos enterrar de novo na vida a fim de ganharmos carne. O mundo tem de tornar-se carne; a alma está sequiosa. Seja em que migalha for que o meu olhar se detenha, investirei e devorarei. Se viver é o principal, então viverei, nem que tenha de me tornar canibal. Até agora, tenho tentado poupar o meu precioso couro, tenho tentado preservar os poucos bocados de carne que me tapam os ossos. Mas isso acabou. Cheguei aos limites da resistência. Estou de costas contra a parede, não posso recuar mais. No que respeita à história, morri. Se houver alguma coisa para além, terei de voltar para trás. Encontrei Deus, mas Ele não chega. Estou apenas espiritualmente morto. Fisicamente estou vivo. Moralmente sou livre. O mundo de que me afastei é uma ménagerie. A alvorada ilumina um mundo novo, um mundo de selva em que os espíritos magros vagueiam de garras afiadas. Sou uma hiena, sou uma hiena magra e faminta: avanço para engordar."

Trópico de Câncer, de Henry Miller (Colecção Mil Folhas, Público, 2003)

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