"A neve, debaixo dos pés, corre à frente do vento, sopra, titila, morde, cicia, redemoinha no ar, cai abundante, estilhaça, pulveriza. Não há sol, nem rugir de rebentação, nem arremetida de vagalhão. O frio vento norte eriçado de setas farpadas, gelado, malévolo, sôfrego, cruel, paralisante. As ruas viram-se nos seus cotovelos torcidos, fogem da vista apressada, do olhar severo. Claudicam pelos resguardos cruzados abaixo, viram a igreja de trás para a frente, derrubam as estátuas, achatam os monumentos, desenraízam as árvores, enrijecem a erva, aspiram a fragância da terra. Folhas baças como cimento: folhas que nenhum orvalho poderá fazer voltar a brilhar. Nenhuma lua prateará jamais a sua indiferente situação. As estações chegaram a uma paragem estagnada, as árvores desbotam e murcham, os vagões rodam nos trilhos de mica, com baques deslizantes, harpiformes. No recesso dos montes coroados de branco a lívida e sem esqueleto Dijon dormita. Nenhum homem vivo e caminhando através da noite, exceptuando os espíritos inquietos que seguem para sul, para as grades de safira. No entanto eu estou de pé e mexo-me, sou um fantasma ambulante, um homem branco aterrorizado pela razão fria desta geometria de matadouro. Que sou? Que faço aqui? Caio entre as paredes frias da malevolência humana, figura branca estremecendo, afundando-se no lago frio, com uma montanha de crânios por cima de mim. Instalo-me nas latitudes frias, nos degraus de greda caiados de azul. A Terra, nos seus escuros corredores, conhece os meus passos, sente a presença de um pé, o estremecer de uma asa, um ofego e um estremecimento. Ouço o saber troçado e ironizado, as figuras subindo, lodo de morcego pingando no alto e ressoando com asas douradas de papelão; ouço quejante, resfolegante, fungando, fumegando e mijando. Todas as coisas chegam até mim através do nevoeiro com o odor de repetição, com ressacas amarelas e Gadzooks. No centro, muito abaixo de Dijon, muito abaixo das regiões hiperboreais, ergue-se o Deus Ajax com os ombros amarrados à roda do moinho, as azeitonas esmagam-se, rangedoras, e a água verde do pântano está cheia de rãs coaxantes."
Trópico de Câncer, de Henry Miller
