20.8.11

"Entretanto, o velho ia fazendo as suas rondas. Eu ouvia o chocalhar das chaves, o ranger das suas botas e os seus passos firmes, maquinais. Por fim, ouvi-o atravessar o caminho de carros a fim de abrir a grande porta, um portal monstruoso e de arcada, sem um fosso à frente. Ouvi-o escarafunchar na fechadura, de mãos geladas e mente entorpecida. Quando a porta se abriu vi, por cima da cabeça do velho, fechadas à chave, todos os cubículos trancados. Todas as portas estavam fechadas à chave, todos os cubículos trancados. Os livros estavam fechados. A noite pairava perto, eriçada de pontas de adaga, ébria como um maníaco. Ali estava, a infinitude do vazio. Sobre a capela, como a mitra de um bispo, pairava a constelação: todas as noites ali pairava, durante os meses de Inverno. Baixa e luminosa, um punhado de pontas à volta do caminho. A porta fechou-se silenciosamente. Quando lhe dei as boas-noites vi de novo aquele sorriso desconsolado e desesperado, parado no refeitório, de cabeça inclinada para trás e com os rubis a descerem-lhe pela goela. Todo o Mediterrâneo parecia enterrado dentro dele: os laranjais, os ciprestes, as estátuas aladas, os templos de madeira, o mar azul, as máscaras rígidas, os números místicos, as aves mitológicas, os céus de safira, as aguiazinhas, as praias soalheiras, os bandos cegos e os heróis barbudos. Tudo isso desaparecera. Afundado sob a avalancha do Norte. Enterrado. Morto para sempre. Uma recordação. Uma esperança louca."

Trópico de Câncer, de Henry Miller

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