"Sozinho, com um medo e uma ânsia tremendos e vazios. O quarto todo para os meus pensamentos. Nada além de mim e do que penso, do que temo. Podia pensar os pensamentos mais fantásticos, podia dançar, cuspir, fazer caretas, praguejar, chorar... podia fazer tudo isso e ninguém jamais saberia, ninguém jamais ouviria. A ideia de uma intimidade tão absoluta basta para dar comigo em maluco. É como um nascimento limpo. Tudo cortado. Separado, nu, sozinho. Felicidade e angústia simultaneamente. Tempo de sobra. Cada segundo a pesar sobre nós como uma montanha. Afogamo-nos nele. Desertos, mares, lagos, oceanos. Tempo a martelar como um cutelo de cortar a carne. Nada. O mundo. O eu e o não-eu. Oomaharumooma. Tudo tem de ter nome. Tudo tem de ser aprendido, provado, experimentado. Faites comme chez vous, chéri.
O silêncio desce por rampas vulcânicas. Além, nos montes áridos, rodando para as grandes regiões metalúrgicas, as locomotivas puxam as suas mercadorias. Rodam sobre leitos de ferro e aço, no solo cheio de escórias, cinza e minério purpúreo. No vagão da bagagem, algas, talas de junção, ferro cilíndrico, chulipas, varetas de arame, chapas e folhas, laminados, arcos dobrados a quente, aparas e carros de argamassa e minério Zorès. As rodas, U-80 milímetros ou mais. Passa por esplêndidos espécimes de arquitectura anglo-normanda, passa por peões e pederastas, fornos de lareira aberta, fundições Bessemer, dínamos e transformadores, ferro fundido e lingotes de aço. O público em geral, peões e pederastas, peixes dourados e palmeiras de algodão de vidro, burros soluçando, tudo isso circula livremente por travessas quincunciais. Na place do Brésil um olho alfazema.
Passo rapidamente em revista as mulheres que conheci. São como uma corrente que forjei com o meu próprio sofrimento. Cada uma ligada à outra. Um medo de viver separado, de permanecer nascido. A porta do útero sempre no trinco. Medo e ânsia. No âmago do sangue a atracção do paraíso. O além. Sempre o além. Deve ter começado tudo com o umbigo. Cortam o cordão umbilical, dão-nos uma palmada no cu e, ala!, estamos no mundo, à deriva, somos um barco sem leme. Olhamos para as estrelas e depois para o umbigo. Nascem-nos olhos por toda a parte: nas axilas, entre os lábios, na raiz dos cabelos, nas solas dos pés... O que é distante torna-se próximo, o que é próximo torna-se distante. Interior-exterior, um fluxo constante, um mudar de pele, um virar do avesso. Derivamos assim anos e anos, até nos encontrarmos no centro, no centro exacto, e aí apodrecemos lentamente, desintegramo-nos lentamente, dispersamo-nos de novo. Só permanece o nosso nome."
Trópico de Câncer, de Henry Miller
