"Não há preocupação mais constante e torturante para o homem do que, ao ver-se livre, encontrar o mais depressa possível alguém diante de quem possa inclinar-se. Mas o homem procura inclinar-se perante aquilo que já é incontestável, tão incontestável que ninguém põe em causa a sua veneração. Porque a preocupação destes seres miseráveis não consiste apenas em encontrar aquilo perante o que se incline este ou aquele, mas em encontrar qualquer coisa em todos acreditem e perante a qual todos se inclinem, o que deve ser feito obrigatoriamente por todos juntos. Esta necessidade de comunidade de veneração é justamente o tormento principal de cada indivíduo em separado e da humanidade em geral, desde o princípio dos tempos. Por causa da veneração universal, as pessoas têm-se exterminado à espada umas às outras. Criavam deuses e clamavam umas às outras: «Abandonai os vossos deuses e vinde venerar os nossos, senão: morte a vós e aos vossos deuses!» Sempre assim foi e assim será até ao fim do mundo, mesmo quando desaparecerem do mundo também os deuses: mesmo assim, as pessoas prostrar-se-ão diante dos ídolos."
Os Irmãos Karamázov - Vol. I, de Fiódor Dostoiévski (Editorial Presença, 2002)
