7.9.11

"Diz lá, quem, mais do que todos, contribuiu para esta incompreensão? Quem fragmentou o rebanho e o dispersou pelos caminhos desconhecidos? Mas o rebanho vai reunir-se outra vez e ficará submisso de uma vez por todas. Então daremos às pessoas uma felicidade sossegada e submissa, a felicidade das criaturas fracas tal como foram criadas. Oh, convencê-las-emos a que deixem de ser orgulhosas, porque Tu as elevaste e, com isso, lhes ensinaste o orgulho; provar-lhes-emos que são fracas, que são apenas crianças insignificantes e que a felicidade infantil é a mais doce de todas. Tornar-se-ão tímidas e vão pôr-se a olhar para nós, e abrigar-se-ão em nós cheias de medo, como os pintainhos debaixo da galinha. Vão admirar-nos e temer-nos, e orgulhar-se por sermos tão fortes e tão sábios ao levarmos à obediência o seu rebanho rebelde de milhares de milhões. Tremerão, sem forças, perante a nossa ira, as suas mentes tornar-se-ão tímidas, os seus olhos lacrimosos, como os das mulheres e das crianças, mas tudo passará com facilidade, a uma ordem nossa, para a alegria e o riso, para a alegria despreocupada e a cantiga infantil. Sim, obrigá-los-emos a trabalhar, mas nas suas horas livres do trabalho organizaremos a vida deles como um brincadeira infantil, com cantigas em coro, com danças ingénuas. Oh, permitir-lhes-emos também o pecado, eles são fracos e impotentes e vão amar-nos como crianças por lhes termos permitido pecar. Dir-lhes-emos que cada pecado será redimido se for cometido com a nossa autorização; ora bem, damos-lhes esta licença para pecar porque gostamos deles e aceitamos tomar o castigo pelos pecados deles a nosso próprio cargo. Assumiremos a responsabilidade pelos pecados, e as pessoas vão adorar-nos como benfeitores que assumiram os pecados delas perante Deus. E não esconderão de nós quaisquer segredos. Vamos permitir-lhes ou proibir-lhes viverem com as suas mulheres ou amantes, terem ou não terem filhos, tudo em função da obediência deles, e eles vão obedecer-nos com alegria. Vão contar-nos tudo, tudo, os mais dolorosos segredos da sua consciência, e absolveremos tudo, e eles vão acreditar nas nossas decisões com alegria porque, assim, serão libertados da grande preocupação e dos terríveis tormentos de tomar as decisões pessoais e livres que têm hoje em dia de tomar. E todos serão felizes, todos os milhões de seres humanos, à excepção de uma centenas de milhares dos seus governantes. Porque só nós, os que guardamos o mistério, seremos infelizes. Haverá milhares de milhões de crianças felizes e cem mil sofredores que carregam com o fardo do conhecimento do bem e do mal. Eles morrerão serenamente, apagar-se-ão serenamente em Teu nome e, para lá do túmulo, obterão apenas a morte. Mas guardaremos o segredo e, para a felicidade deles, vamos seduzi-los com a recompensa celestial e eterna. "

Os Irmãos Karamázov
- Vol. I, de Fiódor Dostoiévski (Editorial Presença, 2002)

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