11.3.12

DE NOITE, ARREPANHADOS

                                                                                                    Para Hannah e Hermann Lenz

De noite, arrepanhados
os lábios das flores,
cruzados e entrelaçados
os fustes dos abetos,
encanecido o musgo, estremecida a pedra,
despertas para o voo infinito
as gralhas sobre o glaciar:

estas são as paragens onde
descansam aquele que surpreendemos:

eles não irão nomear a hora,
nem contar os flocos,
nem seguir as águas até ao açude.

Estão separados no mundo,
cada um com a sua noite,
cada um com a sua morte,
rudes, de cabeça descoberta, cobertos de geada
de pertos e longes.

Pagam a culpa que animou a sua origem,
pagam-na com uma palavra
que existe injustamente, como o verão.

Uma palavra - bem sabes:
um cadáver.

Vamos lavá-lo,
vamos penteá-lo,
vamos voltar-lhe os olhos
para o céu.

Paul CelanSete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética (Cotovia, 1993)

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