Para Hannah e Hermann Lenz
De noite, arrepanhados
os lábios das flores,
cruzados e entrelaçados
os fustes dos abetos,
encanecido o musgo, estremecida a pedra,
despertas para o voo infinito
as gralhas sobre o glaciar:
estas são as paragens onde
descansam aquele que surpreendemos:
eles não irão nomear a hora,
nem contar os flocos,
nem seguir as águas até ao açude.
Estão separados no mundo,
cada um com a sua noite,
cada um com a sua morte,
rudes, de cabeça descoberta, cobertos de geada
de pertos e longes.
Pagam a culpa que animou a sua origem,
pagam-na com uma palavra
que existe injustamente, como o verão.
Uma palavra - bem sabes:
um cadáver.
Vamos lavá-lo,
vamos penteá-lo,
vamos voltar-lhe os olhos
para o céu.
Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética (Cotovia, 1993)
