3.4.12

Camilo Pessanha - Carta a seu pai


Fragmento de uma carta escrita no estreito de Malaca, a caminho de Macau.

17 de Março de 1894

Chegamos amanhã pelas oito horas a Singapura. Doze horas para visitar a cidade. Desde Adém, onde o vapor estava fundeado para meter carvão, é a primeira vez que se descansa em terra mais de três horas. Por engano, escrevi Adém em vez de Porto-Saíde.
Apesar disso, visitei Adém e Colombo. Adém é um rochedo negro que parece de ferro, ainda mais triste que Porto-Saíde, que ao menos é um areal rutilante.
Não vi coisa alguma do que dizia um artigo que eu li de António Enes: nem chins, nem turcos, nem índios, nem gregos... nem ingleses. Ingleses - meia dúzia de militares de uma palidez indescritível, graves, vestidos de ganga amarela. Um calor asfixiante, um país onde me dizem que se passam muitos anos sem chover. Vi um parse (os persas adoradores de fogo e que se expatriaram pela invasão muçulmana e que se distinguem de outros orientais por trazerem de fora a fralda da camisa) e um judeu que se me ofereceu para cambiar moedas. Um negro, de sandálias, aproximou-se com um chicote e deu-lhe uma chicotada. O mesmo negro deu outras chicotadas em diversos negros que ou me ofereciam os seus artefactos, de uma indústria quase africana, ou me disputavam para os seus barcos (o mesmo sistema em Cádis, onde não havia chicotes) ou altercavam. Disseram-me que era um polícia inglês de Adém.
Creio que no tal artigo que li de António Enes, como eu no princípio da carta, escreveu Adém em vez de Porto-Saíde. De tudo quanto ele viu, eu só encontrei os garotos negros, nus, em umas pirogas do comprimento de dois metros, com um único remo pequeníssimo, que parece uma colher, oferecendo-se para irem buscar de mergulho, o dinheiro que se lhes lance ao mar - à la mer, à la mer -, e isto seguido de um grito gutural e selvagem, que fica muitos dias nos ouvidos.
É uma raça de negros lindíssima, altos, de uma magreza macabra, com as feições finas de europeus, os dentes alvíssimos e olhos de veludo. No barco que me trouxe a bordo, um deles riu-se muito para mim, mostrando o esmalte dos dentes, friccionou-os depois com um pedaço de madeira fibrinosa, a mostrar como os limpava... e depois queria que eu lhe comprasse por um xelim (250 rs.) o bocado de pau para também limpar os meus dentes.
Agradeci-lhe em espanhol, que não percebeu, e dispensei-o de tamanho sacrifício.
Respondeu pondo-se a cantar a sua canção selvagem, a voz a subir e a descer, em uma espécie de balanço, entremeado de um riso, em que julgo que me fazia troça, e do grito gutural dos mergulhadores, que os outros remadores acompanham em coro.
Ceilão é uma floresta, que vem mesmo até às ondas do mar. Quantos costumes, quantos vestuários, quantas raças diferentes naquele parque, que é Colombo, de caneleiras, de mangueiras, de cajueiros! E confundidos com todas aquelas raças dominadas, se não fazendo o fundo da população, portugueses descendentes, miseráveis, quase completamente nus, equiparados à casta ínfima dos Hindus, puxando os carros mas falando ainda português, pedindo, uma esmola por amor de Deus, alegando que são cristãos, benzendo-se com uma moeda de cobre que se lhes dá - uma saudade e uma tristeza como se fossem verdadeiramente meus irmãos.
Entrámos em uma hospedaria, e tendo o nosso cicerone dito ao estalajadeiro que éramos espanhóis, este disse-nos, quase envergonhado de só falar português: Também temos muito bom comer. Depois, como se lhe falássemos em português, foi para ele uma alegria doida.
Pelas quitandas, não se vêem senão letreiros - Pedro Gonçalves, António de Carvalho, José Fernandes,etc.
E isto, apesar dos palácios, dos quartéis, de tudo... dos Ingleses, e de a igreja católica portuguesa estar fechada desde 1886!
Só tive um dissabor.
O cicerone ia-nos indicando os indivíduos que encontrávamos, ingleses, soldados, parses, franceses, empregados de armazém - nacionalidades, profissões, o que lhe ocorria. Passaram dois negros africanos de nariz chato. Portugueses - elucidou ele. Tive vontade de o esganar.
Isto vale bem a pena ver-se.


Carta de Camilo Pessanha a seu pai, Francisco António de Almeida Pessanha.

Obras de Camilo Pessanha - II
Contos, Crónicas, Cartas Escolhidas e Textos de Temática Chinesa
Organização e Notas de António Quadros - 1988





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