À direita, o cemitério burguês: nomes sem nome no mausoléu de pedra de Ançã, com letras doiradas e uma estatueta de mármore representando a saudade, lacrimosa.
À esquerda, a outra podridão, transitória e anónima, que em baixo, na montureira da vala comum, escorre em liberdade no declive dos cómoros areosos.
E eu, fúnebre, sublime, conselheiresco, apontava para o cemitério da esquerda e interrogava:
- Não acha isto mais casto?...!!!
Caía o pano.
Não quero passar à posteridade. A outro os louros.
Chame-me embora histérico as vezes que quiser. O que eu senti foi o que naturalmente sentiu: que para passeio todos os cemitérios são maus, mas o de baixo pior. Para apodrecer, talvez seja melhor - mais à larga.
Sabe? Aquele pedaço de colina, adubado de mais, mas estéril, aquelas árvores sujas, banhadas de bom sol e bom ar, mas que parecem estiolar-se emaranhadas e raquíticas, fazem-me lembrar um rosal de saguão. E assomam no meu espírito reminiscências de cacos de loiça e cascas de ovo e cebolas podres - toda a triste evidência das coisas do lixo, quando ao meio-dia uma résta de sol a prumo as ilumina fugidiamente. Preso nos botões que nunca desabrocham no rosal, o cabelo de quando as criadas se penteiam.
Talvez haja cabelos enleados pela rama dos eucaliptos. Talvez, se procurasse bem, o Alberto Osório encontrasse na rama dos eucaliptos cabelos ensanguentados...
E as moscas? Não lhe parecem mais gordas as da vala comum, a zumbirem rentes do chão, com a única impaciência da saciedade a pedir movimento? Moles como cães de açougue! É que os mortos do hospital que vêm aos pedaços, liquescentes, insepultos de muitos dias nas exposições de mármores anatómicos, arremessados para ali de escantilhão por noites sem luar, lambuzam até à borda o resvalo da cova. Lá estava a carreta desses despejo, de fundo virado ao sol, obscenamente.
Vê? Que interesse poderia eu ter em ir espreitar pelas fendas dos mausoléus? Não há ninguém que não saiba como se apodrece.
Senão, é ir ao teatro anatómico. Eu fui lá uma vez. Havia um cheiro forte a cloreto de cálcio, e sentia-se pesar na atmosfera um murmúrio ciciado, como a vibração contínua e tenuíssima de muitas asas diáfanas que se aquietam.
Um grande cadáver de mulher, deitada de bruços, tinha como que um ondular - a matéria liberta da forma, a célula restituída a si mesma - naquela enorme pacificação germinadora. Paralelamente dissolviam-se as feições dum homem, pouco a pouco absorvidas em uma irreconhecível massa viscosa: já o ventre se lhe azulara todo; e na pele finíssima dos membros floria uma lepra abolorecida, miudinha como a flor de miosótis. Na terceira mesa sorria um pequeno, a cabecita pendente, com um sorriso de passividade, resignado e dorido. A cal branca, o mármore branca, a luz muito branca da janela rasgada. Gotejava um sangue vermelho-vivo do narizito. E no tórax, posto a descoberto, o seu coração flutuava em um líquido albuginoso de decomposição, serenamente: e, milagrosamente, nos olhos de quem o via ficava a cismar, flutuante, o sorriso inerte desse coração, dessas gotas de sangue, desse rostinho a sorrir.
(...)
Vê? Que interesse poderia eu ter em ir espreitar pelas fendas dos mausoléus?
A podridão não me atrai nem me afugenta espavorido. Eu não fugi do tal jazigo armoriado. Achei até graça - uma graça desconsolada - nos dois caixões arrumados no fundo.Lembrou-me o jogo da chapelinha, e a Feira da Ladra - o avesso de todas as coisas que foram cómodas e sublimes."
A podridão não me atrai nem me afugenta espavorido. Eu não fugi do tal jazigo armoriado. Achei até graça - uma graça desconsolada - nos dois caixões arrumados no fundo.Lembrou-me o jogo da chapelinha, e a Feira da Ladra - o avesso de todas as coisas que foram cómodas e sublimes."
Camilo Pessanha - Carta a Alberto Osório
Coimbra, 9 de Maio de 1890
Obras de Camilo Pessanha - II
Contos, Crónicas, Cartas Escolhidas e Textos de Temática Chinesa
Organização e Notas de António Quadros - 1988
