30.4.12
O choro dos etíopes tem uma antiga calma,
um tom limpo que não figura nas estatísticas,
provoca no ouvinte perguntas sem sentido,
por exemplo: «Quem sabe onde cantam os mortos?,
Este relógio é o teu?, Chegámos tarde?».
Outros dados também o identificam
com outros povos e há um guia de instruções
onde alguém sem nome deduz como deve
imitar-se: «Levante o rosto lentamente,
olhe para o sol, retenha-o, imagine
que há uma grande noite e um som tristíssimo
como o de pés nus na frescura do mármore.»
E pergunte de novo - está aqui a grande descoberta -
Onde caminham os mortos? Chegámos tarde?.
A quem fixa antecipadamente todos os caminhos
e arquiva a ambígua dor dessa memória,
cabe-me perguntar para quê um choro difícil,
apenas comparável ao da fome presente,
singular, masculina. Onde beijam os mortos?
Este relógio é o meu?, Chegámos tarde?.
Jesús Urceloy
Poesia Espanhola, Anos 90
(Relógio D'Água, 2000)
