26.4.12


"(...) Uma certa espécie de pretensão estava, com efeito, tão encarnada em mim que eu tinha dificuldade em imaginar, apesar da evidência, que uma mulher que havia sido minha pudesse alguma vez pertencer a outro. Mas este juramento que elas me faziam libertava-me, prendendo-as. Desde o momento que não pertenciam a ninguém, podia então decidir-me a romper com elas, o que, de outra maneira, me era quase sempre impossível. A verificação, no que lhes dizia respeito, estava feita de uma vez para sempre e o meu poder assegurado por muito tempo. Curioso, não? É, no entanto, assim, meu caro compatriota. Uns gritam: «Ama-me!» Outros: «Não me ames!» Mas uma certa raça, a pior e a mais infeliz: «Não me ames e sê-me fiel!»
Somente, aí está, a verificação nunca é definitiva, é preciso recomeçá-la com cada ser. À força de recomeçar, contraem-se hábitos. Bem depressa o discurso nos surge sem pensarmos nisso, segue-se o reflexo: encontramo-nos um dia numa situação de possuir sem verdadeiramente desejar.Acredite-me, para certos seres, pelo menos, não possuir o que se não deseja é a coisa mais difícil do mundo."

Albert Camus, A Queda (Verbo - Livros RTP - 1971)

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