S. Martinho de Anta, 13 de Dezembro de 1953
Cá estou eu a lutar pela última raiz que me resta. Meu pai teve uma hemorragia cerebral, e vim acudir-lhe. Mas, inerte e com a boca torcida, o velho parece sorrir-se ironicamente da minha aflição e das minhas drogas. Dir-se-ia que, já da outra margem do ribeiro, contempla apenas, displicente, o espectáculo tragicómico do ser humano em actividade. Uma espécie de humor negro passivo, semelhante ao dos relógios parados quando a gente os olha a saber as horas.
Eu é que não me dou por achado, e com a serenidade que posso vou chorando por dentro e actuando por fora. Que há-de fazer um filho, senão ser fiel à cepa, e um médico, senão medicar? De resto, diante dos tais relógios parados, a única saída é dar-lhes corda. Mesmo que não andem, ficam carregados da nossa energia, que nos defende da inércia escarninha deles.
Miguel Torga, Diário (Dom Quixote, 2010)
