17.4.12


"A vila é tumular e encardida, mas oculta dentro dos seus muros um sonho desconforme. Talvez desconexo, mas desconforme. O sonho é dele: a própria casa de granito revê sonho. O Gabiru mistura, revolve, extrai sonho do sonho. Debalde o que é mesquinho lhe mostra os dentes: o Gabiru não ouve, não vê, não sente. O sonho isolou-o da própria mulher transida de frio, no casarão que deu à costa como uma nau do passado, com o cavername roído pelo mar das trevas.

É um ser quase etéreo. Nem sei dizer se existiu, se a criei; sei que se sumiu num sopro cada vez mais efémera, com dois olhos verdes de espanto. Sei que me pegou sonho, e que fui levado, perdido, como uma coisa inerte...

Morreu transida de frio. Uma mulher pálida - o que vale um pássaro. Ternura e dois olhos verdes de espanto. Hesita, mal poisa os pés no chão, chora baixinho, e vai talvez acordá-lo, queixar-se... Não se atreve, e esboça um sorriso logo molhado de lágrimas. Morre de frio. Agosto - morre de frio. Até para lhe sorrir se esconde, e põe-se então a olhar o muro (vou-te dizer o sítio), a falar com o muro, a queixar-se à grande nódoa de humidade da parede. Dois olhos verdes de espanto, um vestido de seda, e as meias rotas nos calcanhares. Um nada de ternura tê-la-ia salvo - ninguém a arranca àquele sonho informe. Morta...
Ninguém. Estende fios no chão entre as árvores, e as árvores todo o Inverno se desentranharam em flor. Pegou-lhes sonho também. É um desbarato, uma profusão que as devora. Absurda. O quintalório ao pé da muralha, que há séculos revê humidade, não é maior que um lenço; a Primavera só chega aqui tarde e de mau modo, com pena das árvores de saguão. Arrepende-se logo. Já vêem que o absurdo é maior ainda... Dezembro e Primavera. O céu gelado, um brilho de estrelas em engastes novos e, entre a cárie das paredes, as macieiras baixinhas e humildes como exalações de ternura. Mortas. Mortas, secas de sonho. Mortas as árvores desfeitas em flor."

Raul Brandão, Húmus (Bertrand, 2011)

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