4.5.12

  "Há qualquer coisa de esplendidamente inigualável no conjunto do povo hindu, que sempre procura o mais e não e não o menos e foi quem mais negou o mundo visível. É um povo despreocupado, não só em espírito, mas fisicamente, o povo do Absoluto, o povo radicalmente religioso.
  O sentimento religioso cristão (embora adoptem Jesus Cristo e dele falem com frequência como sendo um «dos seus», um asiático, etc.) tem uma aparência diferente do sentimento religioso hindu.
  «Senhor, Senhor, do fundo do abismo clamei por ti».
  «De profundis clamavi ad te, Domine». Eis a palavra que desencadeia um sentimento cristão fundamental: a humildade.
  Quando se entra na catedral de Colónia, está-se no fundo do oceano; não é ali que se encontra a porta da Vida, mas nas alturas. «De profundis», entra-se e fica-se logo perdido. Não se é mais um rato. Humildade, «orar gótico».
  A catedral gótica é construída de tal modo que quem lá entra fica aterrado de fraqueza.
  E ali reza-se de joelhos, não em terra, mas sobre o rebordo esquinado de uma cadeira, dispersos os centros de magia natural. Posição infeliz, nada harmónica, em que cada um não pode realmente fazer mais que suspirar e tentar arrancar-se à sua miséria: «Kyrie Eleison, Kyrie Eleison», «Piedade Senhor!».
  As religiões hindus, pelo contrário, não soltam a fraqueza do homem, mas a sua força. A oração e a meditação são o exercício das forças espirituais. Ao lado de Kali encontra-se o quadro demonstrativo das atitudes de oração. Quem reza bem faz cair pedras, perfuma as águas. Força Deus. Uma oração é um rapto. E não se consegue sem uma boa táctica.
  O interior dos templos (mesmo dos maiores exteriormente) é pequeno, para quem lá entrar poder sentir a sua força. E em vez de um grande altar, possui vinte nichos. É preciso que o hindu sinta a sua força.
  Então ele diz OOM. Serenidade no poder. Magia no centro de toda a magia. Convencemo-nos ao ouvi-lo cantar os hinos Védicos, os Upanishades ou o Tantra da grande libertação.
  A alegria no domínio, a tomada de posse, a razia garantida na massa divina. Recordo num deles uma espécie de cupidez, de ferocidade espiritual que cuspia, vitoriosa, na cara da desventura e dos demónios inferiores. Noutros, uma beatitude definitiva, tacanha, arrumada de uma vez para sempre.
  A união do espírito individual com Deus. Não acreditar que se trata de uma busca rara. Não tem nada de excepcional. Mas chegar lá, já tem que se lhe diga.
  Nas aldeias, por volta das seis horas da tarde, ao sol-pôr, ouve-se por todo o lado o som fortíssimo do entrechocar de búzios. É sinal de que as pessoas estão a orar (à excepção dos últimos miseráveis, todos têm o seu templo, de pedra, madeira ou bambus cobertos de folhas). Oram e depressa rolam por terra possessos da deusa Kali ou de qualquer outro deus.
  Estes fiéis são gente de boa vontade a quem ensinaram tal ou tal prática e que, como a maioria dos que se ocupam da religião, chegados a um certo nível, patinham e não vão mais além.
  Das pessoas de boa vontade, nunca se sabe se devemos rir ou chorar. A um dos que consegui ver em acção (embora em geral se abstenham cuidadosamente de orar na presença de europeus) ouvi isto: «Hoje só consegui atingir uma pequena parcela de Deus».
  O próprio êxtase hindu, nas suas formas mais elevadas, não deve ser confundido com as vias da música cristã. Santa Angélica de Foligno, São Francisco de Assis, Santa Ludovina de Schiedam atingiam o êxtase por dilaceração; Ruysbroek o Admirável, São José de Cupertino por uma humildade lancinante. À força de despojamento, de não ser nada, eram abocanhados pela Divindade."


Henri Michaux, Um Bárbaro na Ásia
(Fenda, 1997)

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